Hey, girl: deste jeito tu nunca irá decolar

Hey, girl: deste jeito tu nunca irá decolar!” Outch. Mas sim, eu queria que alguém tivesse me dito isso, há 15 anos atrás.

Eu queria que alguém tivesse lembrado a millennial aqui que não, ela não merecia nada “apenas por existir”. Queria ter sido lembrada que fora meus pais, ninguém me ama incondicionalmente nesta Terra e que sim, ações ocasionam reações. Ah! E que seria necessário lutas – internas e externas – para quebrar padrões impostos e solidificados dentro de mim.

Se eu tivesse ouvido isso, talvez não tivesse sofrido tanto. Mas vai saber, né? Trabalhar no “e se”, é sempre muito delicado.

Eu nunca havia tido a chance de entrar em uma empresa onde eu me sentisse respeitada, valorizada e incentivada. Não entendia porque eu dava meu melhor, trabalhava até longas horas da noite, era pontual no trabalho e não deixava de entregar nenhuma demanda a mim solicitada e, mesmo assim, nada acontecia. Estudava como uma louca, procurava ser solícita e proativa, ajudava a equipe toda e mesmo assim, o reconhecimento nunca vinha.

Em um estágio, fiquei quase 2 anos fazendo a mesma coisa e sem progredir. Quando percebi que estava marcando passo, saí. Fui para uma empresa onde pude aprender muito e trabalhar com algo que eu amo – desenhar estampas. Mas depois de quase 4 anos fazendo a mesma coisa e sem ter um cargo acima do meu para onde eu pudesse evoluir, eu saí. Fui chamada para uma empresa onde pude fazer outra coisa que eu amo: ensinar. Mas também senti que não seria ali e com aquela gestão que eu cresceria. E então, saí. Entrei para uma empresa grande do setor calçadista, amava meu trabalho, mas senti que também não prosperaria e nem era culpa de ninguém, era uma questão de fit mesmo: eu não pertencia àquele lugar e àquele estilo de gestão. Fui demitida. Nossa, como assim? Fiz o meu melhor o tempo todo e não foi o suficiente? É, isso mesmo. Comecei em uma agência de comunicação e fiquei quase 5 anos. Gostava dos colegas e do trabalho, mas não me sentia mais desafiada. Então, novamente eu saí.

E fui estudar mais um pouco, para me fortalecer e entender como eu poderia ser a gestora que eu sempre quis ter nas empresas nas quais trabalhei. E foi sendo aluna de mulheres incríveis, que acabei entrando para uma empresa incrível. Esta empresa liderada por mulheres. Mulheres fortes, inteligentes, independentes, empreendedoras, gestoras, líderes. E comecei a entender o motivo de eu nunca ter sentido que estava dando certo em empresa nenhuma: eu precisava, mesmo, era encontrar a empresa certa para mim.

Quando existe uma equipe forte onde as vozes femininas são ouvidas e respeitadas, há espaço para que uma mulher possa descobrir a sua força e crescer. E foi o que aconteceu comigo. Eu não me adapto a ambientes machistas onde as mulheres precisam se acostumar a baixar a cabeça e dizer amém a tudo que algum gestor homem diz. Eu fui criada para pensar e quando estou em ambientes que atrofiam meu raciocínio ou me subestimam, eu murcho. Eu desapareço. Eu fico desmotivada, triste e pouco eu mesma.

E quanto tempo levou para eu me construir como sou hoje? Quanto tempo levou para eu preencher as lacunas de vazio e de insuficiência que vozes masculinas cavaram em mim? Muitos anos, mesmo. De relacionamentos amorosos a amizades tóxicas e ambientes de trabalho legais mas que não permitiam crescimento, eu fui me encolhendo e escondendo. Leva tempo até a gente entender que há momentos nos quais não importa o quão excelente tu seja, se não houver alguém acima de ti que reconheça isso, tu simplesmente não irá crescer. Não adianta chorar, espernear, sofrer.

Tu precisa te fazer notar, perceber. E pelas pessoas certas. Mas para que as pessoas certas te percebam, é necessário estar no lugar certo e com humildade e muito trabalho, mostrar a elas que elas podem sim, contar contigo. Confiar em ti.

E não apenas porque tu deseja crescer e ser vista, mas principalmente porque tu genuinamente AMA aquele lugar como se fosse teu. Tu te percebe ali, todos os dias, em meios a alegrias e muito perrengue, solucionando e contribuindo porque tu te importa com teus colegas, teus gestores, com a empresa. E isso é percebido genuinamente porque o teu sentimento é genuíno. Simples assim.

Foi quando eu comecei a trabalhar com mulheres e para mulheres que admiro, que passei a entender porque após 15 anos de carreira criativa eu finalmente estava feliz: essas mulheres me impulsionam e encorajam a ser tudo o que eu sempre sonhei e me indicam os caminhos possíveis para conquistar os objetivos que eu sempre desejei, enquanto homens me disseram que eu jamais sairia do interior do Rio Grande do Sul e que meus desenhos e textos nunca seriam publicados por nenhuma marca de prestígio.

Todas as vezes em que eu, mulher, me senti envergonhada e diminuída por ser quem sou – mulher – permiti que algum homem me dissesse o que sentir, o que fazer, como viver e como me portar. Foi aos 30 anos que eu comecei a ver o mundo de possibilidades que existia bem na minha frente, mas que eu nunca havia percebido. Louco, isso. Muito louco.

Fala-se tanto em lutar para ser quem desejamos ser, mas na verdade é muito mais sobre coragem e desconstrução do que sobre luta. É sobre sair da posição que nos oprime e mesmo tremendo de medo, dar um passo à frente.

Eu teria vencido se tivesse ficado em Igrejinha, esperando as coisas darem certo e aguardando uma oportunidade prometida e nunca recebida? Não. Eu precisei largar tudo que eu amo e valorizo e me mudar de estado para descobrir que eu sou sim, muito mais forte do que eu supunha.

E se hoje eu estou feliz com meu próprio estúdio de narrativas criativas, desenhando e escrevendo para marcas nacionais e internacionais que eu respeito, é porque eu tenho a oportunidade de aprender com mulheres incríveis todos os dias. Eu comecei a crescer quando finalmente entendi que não seria aguardando a aprovação masculina que eu conquistaria a minha fatia do mundo.

E isso tudo é delicado e difícil, por que nós, mulheres, somos criadas para competirmos umas com as outras, para estarmos sempre em guerra e em posição de juízas umas das vidas das outras. Quando a mulher se permite ser mulher e ajudar a outras mulheres, a carreira criativa fica muito mais viável. Minha sensibilidade nunca foi o problema, e hoje eu vejo isso: meu erro foi tentar ser aceita sensível, imperfeita e mulher por homens que jamais conseguiram perceber o esforço constante que existia ali, apenas em estar respirando entre eles como minoria em uma sala de reuniões repleta de seres do sexo oposto. Era sufocante ter a mão esmagada em um cumprimento e permanecer sorrindo como peça decorativa da sala.

Mas todas nós, mulheres, já passamos por coisas assim e este texto não é uma novidade, não é? A novidade é que a mulher que eu me tornei hoje tem o recado para ti, guria ambiciosa de vinte e poucos anos: Hey, girl: deste jeito tu nunca irá decolar.

Não empaca em empresas que não te respeitam e não ouça pessoas que não te valorizam. Não permita que homens te digam como tu pode vencer, sendo mulher. Seja ambiciosa, mas não seja arrogante e presunçosa. Seja ousada, mas seja sempre educada. Procure um lugar para trabalhar que esteja alinhado com os valores que são importantes para ti. E ouça os mais experientes que tu, aprenda com eles (inclusive a como não ser, e o que não fazer).

Corra atrás dos teus sonhos, mas não use ninguém como escada ou atalho. Tu pode vencer, sim. Mas que seja uma luta limpa. E, se possível, trabalhe com mulheres e para mulheres. Somos incrivelmente fortes e poderosas quando nos unimos.

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