388 dias em casa

Não saio e nem passeio, não me distraio, não me divirto. Quando eu ouço ou leio alguém falando sobre sanidade mental, eu quero sumir da face da Terra. Estou fazendo tudo que posso para seguir os cuidados em pandemia, minha sanidade mental a estas alturas já é inexistente. E assim como eu, há muitas pessoas agindo corretamente e seguindo todos os protocolos de segurança. Como estará a sanidade mental dessas pessoas?

Não vejo meus pais há 1 ano e 5 meses. Não vejo meus amigos há mais de 388 dias.

Minha rotina diária é acordar, trabalhar, dormir. Acordar, trabalhar, dormir. Sou cobrada o tempo todo por “não estar caminhando, não estar saindo ao ar livre”. Tenho que ficar me explicando que o “ar livre” aqui de SP não é como o de Igrejinha, que aqui os parques estão fechados e os níveis de contágio são altos, que mesmo dentro do condomínio onde eu moro, há áreas restritas e que não podem mais ser usadas pelos moradores, a fim de evitar aglomerações. E eu respeito isso. São tantas as cobranças e perguntas sem fundamento que eu já nem sei como tenho paciência para responder.

Estou saindo de todos os grupos de WhatsApp e me protegendo como posso dessa enxurrada de perguntas, de “mensagens carinhosas”, de “bom dia, boa tarde e boa noite”.

Eu sempre tinha um sono fácil, que durava uma noite toda e que me fazia acordar bem e disposta no outro dia. Estou há 388 dias dormindo picado, em etapas, sem conseguir relaxar de verdade. Hoje acordei às 4h da manhã e de modo brusco, sem conseguir dormir um pouco mais. E então continuei a escrever essa coluna.

Além disso, sinto que minha esperança de que a pandemia fosse desacelerar o ritmo do mundo se foi por completo. A pandemia trouxe um senso de presença online muito forte, um senso de urgência que atropela e sufoca.

Em atendimento a um cliente, ontem, a moça comentou que sentia falta de um número de telefone para entrar em contato. Respondi que a pandemia me ensinou a não querer estar disponível por telefone a qualquer um, a qualquer momento, e que o e-mail registrava tudo o que era acordado de modo eficaz. Sim, estou em um momento da carreira que me permite ser bem sincera e ir direto ao ponto, sem rodeios. Esse senso de urgência e desespero, aqui em meu trabalho, não permito mais.

Precisamos dar o limite a tudo que nos ataca, mesmo que de modo invisível e parecendo inofensivo. Precisamos nos proteger para que possamos passar por tudo isso – nós, os que respeitam o isolamento social do modo que deve ser respeitado e que precisamos ver fotos e vídeos da maioria vivendo normalmente, como se tudo estivesse bem e não houvesse mais de 4 mil mortes diárias aqui no nosso país, por covid-19.

A incrível força que existe na transformação de um nó, em laço: o nó que aperta a garganta e sufoca até quase nos fazer desmaiar – quando olhamos pela janela de nosso apartamento e nos sentimos menores e mais indefesos do que pequenos insetos – transformado em laço que nos une ao amor uns aos outros, ao respeito à vida e às partidas das centenas de milhares de pessoas que não conseguiram superar o vírus.

Isso exige calma, paciência, processo, tempo, força de vontade, amor. O ato de nos importarmos uns com os outros é o laço mais forte e bonito que fazemos em nossas vidas. O tanto que tu te dedica a tudo e todos que estão ao teu redor conta um pouco mais sobre a tua história, quem tu és. Nesse capítulo triste da história do povo brasileiro, sinto orgulho por saber que permaneci correta, mesmo abdicando de quase tudo que me faz feliz por 388 dias. É sobre se importar, é sobre estar disposto a contribuir e agregar. Minha sanidade mental pode esperar. A vida das pessoas, não. 

E aí eu penso: Quando isso tudo passar, quais são as 5 primeiras ações que receberão as minhas energias? Já fiz uma listinha:

  • Viajar pro sul e ficar com meus pais uns 2 meses;
  • Voltar para a academia e a me exercitar;
  • Fazer todos os meus exames de saúde;
  • Conhecer todos os lugares que quero conhecer em SP e arredores (e que ainda não conheço); e
  • Voltarei a aplicar para o meu doutorado.

Tento pensar em coisas boas que me aguardam no #pós-pandemia, pois isso me ajuda a não pirar enquanto ainda estamos vivendo esse contexto tão ruim, triste e desastroso. Tento visualizar o que desejo para ir buscar assim que possível.

Estou elaborando um plano de ação, colocando minha energia e propósito nos meus objetivos e fazendo acontecer. Tem objetivo que é mais fácil que outros, tem aquele que é mais difícil. Não importa: organizar o meu tempo e focar minha energia para que os meus sonhos saiam do papel, me motiva. E sim, sinto que a desmotivação é um sentimento constante em pandemia – a maioria das pessoas anda muito chateada para sair do lugar (mesmo que mentalmente) e isso é compreensível.

Já são 388 dias em isolamento social e, sinceramente, não sei como que eu sigo em frente produzindo conteúdos todos os dias. Não está fácil. Como me propus a acompanhar os dias em casa, permaneço contando os dias e contando como passo esses dias.

Motivação é aquilo que te faz produzir e te tira de um estado de inércia, não é? Se meu corpo não pode ir aonde desejo, abraçar quem eu amo e experienciar a liberdade de um mundo são e bom, que minha mente possa sonhar e planejar como eu viverei o pós-pandemia.

Isso tudo é, também, sobre resiliência. Sejamos fortes, já que aparentemente a nossa sanidade mental não importa tanto, visto que os mais “debilitados” estão vivendo normalmente. 

Isso tudo é, sobretudo, sobre consciência e responsabilidade social: há quem se importe e quem não dê a mínima. Retrato de um Brasil egoísta comandado por incapacitados que infelizmente ocupam esses cargos porque a maioria dos brasileiros nunca soube fazer valer o seu voto.

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