Sobre a ironia das coisas

Eu “preciso” ver fotos de pessoas na praia, drinks em barzinhos por aí, reuniões de amigos e vídeos de gargalhadas felizes. Eu preciso ser bombardeada pelas férias felizes de amigos e conhecidos aqui no Brasil.

Preciso achar tudo certo, preciso entender o quão difícil é para aqueles que sofrem de ansiedade, precisar ficar em casa. Eu assisti famílias inteiras brindando no Natal, repartindo assados e rindo felizes. Assisti aos brindes de ano novo, comentei em fotos de looks de amigos. Vi isso tudo triste, em casa e em isolamento social, longe da minha família, dos meus amigos.

Eu, tão ansiosa quanto a maioria dos criativos mundo afora, encontrei nas leituras, arte e redes sociais um meio de passar o tempo – na tentativa de passar o medo, o que aliás, não passou.

Perdi três amigos para o covid e não pude me despedir deles. Uma delas estava grávida. Ouço o tempo todo sobre o quanto “eu estou sendo radical, pois meus pais são idosos e estou perdendo tempo não indo vê-los”. Ouço deboches por falar dos cuidados que tenho. Ouço deboches e opiniões rasas sobre a vacina, sobre o vírus, sobre o isolamento. Ouço um presidente que eu não elegi “sentir muito, mas as mortes acontecem”. 

Eu sinto falta da praia e ainda não fui ver o mar. Sinto falta do abraço dos meus pais e ainda não fui vê-los. 1 ano e 3 meses sem vê-los. Essa contagem dos dias em casa, nessa pandemia que não tem fim, é super exaustiva. Eu sabia que seria. Mas esse acompanhamento que eu faço, é um registro.

Cuidados em relação a uma pandemia não são questão de “respeitar opiniões”. Há o que é certo, e há o que é errado. Órgãos de saúde mundo afora disseram o que pensam e deixaram isso claro. Aconselharam e instruíram. Desejos individuais NÃO deveriam se sobrepor à segurança pública. 

Observação importante: quem precisa sair de casa para trabalhar, quem não tem escolha, não tem opção – ou sai de casa e vai ganhar o seu pão, ou sai de casa e vai ganhar o seu pão. O que me inquieta é ver aqueles que estão trabalhando em casa e estudando em casa, “protegidos”, mas saem para passear, viajar e curtir. Oi? Qual o sentido disso?

Está rolando a vacinação e isso é ótimo. Mas até toda a população receber a vacina, vai demorar. Então fica aqui, mais uma vez, o lembrete: ainda não acabou.

E é por isso que afirmo: não, não é sobre leite condensado.

É sobre estarmos vivendo uma pandemia onde falta luz, oxigênio, geradores em hospitais – é sobre não ter leitos em hospitais.

É sobre perder amigos toda a semana e nem poder dar adeus. É sobre o desemprego aumentando e empresas quebrando.

É sobre o auxílio emergencial que acabou. É sobre as pessoas que pegaram esse auxílio para comprar roupa e pagar cartão de crédito enquanto pessoas morriam de fome e frio em nosso país.

É sobre as coisas estarem cada vez mais caras e o mercado da semana dar quase 400 reais – sem muitos luxos no carrinho, hein? (E é sobre, ainda!, agradecer por ter esse dinheiro e poder comprar o que precisa e o que nem precisa tanto assim).

É sobre comprar um rolo de papel de aquarela antes da pandemia, por R$ 1.800 e o mesmo rolo custar, hoje, o dobro disso. É sobre evitar muitas prestações. E é sobre ter medo de se comprometer com uma dívida.

É sobre se desdobrar em 15 para dar conta do trabalho e querer trabalhar menos, mas não poder. 

É sobre ver gente que a gente ama morrendo, porque pessoas que a gente tolera não se importam.

Não é sobre o leite condensado. É sobre o leite derramado. E não adianta chorar por ele, pois quem elegeu o governo de hoje sabia muito bem o que estava fazendo. E o fez porque se acha rico demais para lembrar que todo mundo que bate cartão é tão pobre quanto – e que, no fim do dia, o caixão fechado e o velório sem os entes queridos vale para todos (independentemente da conta bancária).

Criativo, ainda acha que não é contigo? Ainda acha, mesmo, que o teu perfil pode se dar ao luxo de ter tanto mais do mesmo e tão pouca reflexão? Acha, mesmo, que tua comunicação acontece apenas aqui?

Não, não é sobre o leite condensado. É sobre a ironia das coisas.

É sobre a falta de diálogo e de amor ao próximo. É sobre a falta de carinho no mundo e a vontade de fazer a real diferença sem sair do seu cercadinho confortável e egoísta.

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