2020 está acabando. A pandemia, ainda não.

2020 está acabando. E que ano. Que ano difícil, que ano desafiador, que ano [insira a palavra/sentimento aqui].

Todo fim de ano fazemos os mesmos rituais: listas de desejos para o próximo ano, uma retrospectiva de nossos melhores e piores momentos, tantos planos. A virada de 2019 para 2020, foi assim. Pulamos ondinhas na praia, celebramos. Mal sabíamos o que 2020 nos aguardava. Começamos o próximo ano repletos de sonhos, achando que 2020 seria o nosso ano. E foi, de certo modo.

Feliz Ano Velho

2020 foi o ano de rever atitudes, de rever pensamentos, de caminhar mais devagar e olhando mais para todos os lados.

2020 foi o ano de reparar mais em quem caminha ao nosso lado, de mãos dadas com a gente. E nesse ato de reparar aqui e ali, acabamos reparando, também, em quem foi deixando o caminho para enveredar por novas estradas e atalhos. Perdoamos e fomos perdoados.omos pensando nisso tudo e ficando mais quietos, mais reflexivos.

Disseram que ninguém iria soltar a mão de ninguém, mas acabamos muito mais soltos do que amparados. Mortes por cor da pele, injustiças contra a mulher, denúncias no mundo da moda: muitas mãos ficaram sem poder tocar a ajuda que precisavam.

Quem está ao nosso lado?

E ao mesmo tempo que estávamos nos redescobrindo em meio a esse turbilhão de sentimentos e sensações, a internet nunca foi tão utilizada antes. Reflexivos no offline, falantes no online. Tantas lives, publicações, textões, vídeos, fotos. Falamos tanto, que falamos demais até quando não tínhamos absolutamente nada a dizer. Cansamos a nossa voz, cansamos os ouvidos de muitos. Ouvidos, olhos, cérebros. A sensação é de um cansaço generalizado que vai da raiz dos cabelos até as pontas dos dedos dos nossos pés.

Perdemos tantas pessoas maravilhosas para esse vírus. Perdemos ainda mais pessoas incríveis por conta da nossa ignorância. Achávamos que logo viveríamos a nossa “normalidade”, romantizamos o ficar em casa até quando conseguimos e assim que apareceu a menor brecha possível para sairmos de nossos “cativeiros”, saímos todos juntos e aglomerados para festas, bares, pubs, praias e shoppings. “Nossa cabeça precisa de ar!” “Não consigo mais ficar em casa, trancada!” “Estou com saudade do mar!” 

Colocamos as máscaras faciais – nem sempre do jeito correto – e enfiamos um pote de álcool em gel na bolsa. Quando surgiu o auxílio emergencial do governo, muitos de nós – com teto, comida, proteção e nenhuma necessidade de solicitar o auxílio – o pegamos mesmo assim. Pagamos corte de cabelo em salões, pagamos produtos de maquiagem e roupas novas, pagamos nossos cartões de crédito. Famílias que realmente precisavam dessa ajuda, não receberam. Mas estávamos de cabelo feito, unhas em dia e um guarda-roupa repleto de looks novos e não necessários.

2020 me mostrou o melhor e o pior do ser humano. Mostrou que quem é bom, pode ser ainda melhor. Mostrou que quem é ruim, consegue superar as expectativas de maldade. A batalha entre a empatia e o egoísmo, foi árdua. Ainda é.

Essa época de recesso de fim de ano e esses poucos dias de descanso faz com que as legiões de ‘apaixonados pela natureza’ lotem as praias. Não, eu não posso ir para praia. As pousadas estão lotadas e mesmo que não estivessem, em pandemia, sem condições de frequentar. Sem saber da higiene e condições dos locais, não dá. Lamento, mas não consigo.

Casa na praia? Todos os familiares que possuem, já estão se aglomerando desde já. Não, muito obrigada. Não quero, não preciso disso. Por respeito a mim e a quem amo. Por respeito a quem conheço e desconheço. À vida.

“Precisava do mar”, “precisava da areia nos pés”. Que bom. Né? Fico feliz por quem pode ir à praia e escrever texto lindo sobre como está recarregado e energizado. Confesso que eu também amaria me sentir assim, pois é a minha época favorita do ano: estar em família, comemorando, celebrando na praia, com o vento nos cabelos e o coração repleto de novos planos. Meu aniversário é 01.01 e essa data é muito simbólica para mim.

Aglomeração na praia comandada pelo presidente. O que dizer? Foto de 30.12.2020, litoral de SP.

2020 foi o ano que mais me fez chorar (de alegria e gratidão, de desespero e tristeza). Um aperto no coração, uma ansiedade e angústia, que nem sei mensurar. Um medo, uma saudade gigante dos meus pais, irmã, cachorrinha Caramelo, alguns poucos amigos. 

Estou sem ver meus pais há mais de um ano, estou precisando de mar como todo mundo, mas estou em casa trabalhando e pensando. Sinto que estou esgotada, triste e ao que parece, poucos se importam. Todo mundo colocou a sua própria necessidade acima do cuidado, acima do todo, acima da sociedade, do coletivo, da pandemia. Empatia com os que estão se sacrificando? Zero. Há profissionais da saúde morrendo na linha de frente enquanto os hospitais são lotados por ignorantes saudosos do mar, da balada, da cerveja gelada no bar. E os que ficaram em casa esses 10 meses, longe de tudo e de todos? Basta não cuidar um tico sequer, que tudo isso não valeu de nada. Na di nha. Inclusive, já aproveito para dizer que em pandemia, não há espaço para visitas aqui em casa – quem não perguntou uma vez sequer como eu estava nesses quase 5 anos que estou dividindo minha moradia em São Paulo e Igrejinha, não precisa vir me visitar em plena pandemia. Agradeço.

Não basta furar a quarentena e o cuidado, passeando. Tem que fazer foto e texto. Tem que postar. Para falar do detox tecnológico, posta mais textão sobre como está bem. Parabéns, camarada. Show. Eu não estou. E embora fique feliz por ti, sobre o quanto está contente aí, fico triste por não ter ninguém perguntando como está quem não achou prudente sair de casa, enfrentar filas e trânsito para ir celebrar, também. Fico triste pela quantidade absurda de textos que estou lendo de amigos e conhecidos se despedindo de pais, avós e amigos mortos pelo Covid-19 enquanto a maioria esmagadora não está nem aí.

Ano novo chegando, aniversário chegando, família toda longe, esgotamento físico e mental, zero empatia: saldo pesado, esse.

Ir para a praia não é uma necessidade do coração. É uma necessidade de virar notícia, assunto, mostrar como é pleno e como está feliz. Uma vontade de dizer que está esperando 2021 leve e recarregado, pés na areia. Que bom. Que ótimo. 

Eu queria, de verdade, que todo mundo que tá saindo e curtindo soubesse fazer esses passeios para si e não pro mundo todo ver.Se os fizessem com esse cuidado e de boca calada, seria menos patético e triste.Se estivessem cientes de que talvez essa atitude de publicar viagens e passeios, brindes e abraços coletivos em plena pandemia possa ser gatilho negativo para quem não pode e tem consciência de que não pode sair, não registrariam esses momentos para exibir por aí. 
Para os que ficam com a tela do celular na mão e o coração apertado, explodindo em tristeza e ansiedade, resta dar likes nas fotos de escape de uma realidade que não lhes pertence.
Feliz 2021. Parabéns a quem realmente viveu 2020 sendo íntegro e corajoso, justo e banhado em empatia. A vocês, meu Feliz 2021.Aos demais, deixo esse texto e o meu silêncio.

Meus desejos para 2021? Que isso tudo acabe, que a vacina chegue logo até a todos que tanto precisam dela, que minha época favorita do ano acabe, também. Em 2021 seguirei confiante, otimista e um tanto realista. Não adianta, essa é a mistura que faz da Martina, a Tina que vocês conhecem.

Agradeço de coração por todas as vezes que meus textos foram lidos aqui, nesse espaço que amo e que foi cedido às minhas reflexões.Ano que vem tem mais! E espero que eu possa compartilhar mais coisas boas, do que ruins.

Agora peço licença, pois preciso recarregar a energia e a tomada aqui de casa não tem vista pro mar.

Nos lemos ano que vem.

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