Algumas coisas sobre Emily in Paris que precisam ser ditas

Recentemente eu criei dois conteúdos sobre a série “Emily in Paris“, disponível na Netflix e fiquei surpresa com o grande engajamento que obtive. Fiquei mais surpresa, ainda, com alguns comentários que recebi – alguns até debochando do próprio conteúdo de uma forma tão deselegante que, ao invés de me deixar triste como certamente foi o objetivo da não polite person que comentou, me fez refletir ainda mais e dar boas risadas sobre os “criadores de conteúdo” que existem por aí. Mas, dizem que quem não tem haters, não tem lovers, não é?

Sim, o EGO nas redes sociais é algo tão frágil, tão delicado, que até mesmo um bom conteúdo criado por outra pessoa pode servir de ataque imaginário e motivo para o desdém. E vocês não imaginam a quantidade de gente que estava usando o meu post para escrever os links dos seus conteúdos! Hahaha.. foi a festa do block por aqui! Sim, eu amo ajudar e quero sempre ajudar. Mas aqui não é bagunça não. 😀

Enfim…

Emily in Paris” é a série queridinha do momento e eu não julgo: achei legal também. Mas após ler tantos posts enaltecendo a série um pouco além da conta, resolvi mostrar 9 pontos onde NÃO devemos seguir o caminho de Emily. Vem comigo?

1. Fingir até conseguir. Não se aprende uma língua estrangeira fingindo até conseguir, sem estudar. A menos, é claro, que queiramos passar por ridículos. “Ah, mas isso foi uma brincadeira, bla bla blá”. Não, isso foi uma fala infeliz de uma pessoa despreparada que acha que é no susto e na indicação que as coisas acontecem na vida. Aprender um novo idioma não é algo que se aprende do dia para a noite, com algumas aulas apenas e arriscando um bonjour aqui e outro acolá. Francês é uma das línguas mais difíceis que existem. A sonoridade, o sentido e a entonação das palavras, tudo pode mudar drasticamente o significado da comunicação. Essa fala da Emily é tão triste e problemática que apenas reforça o quão imatura ela é. “Ah, mas é uma série bobinha, levinha, para não pensar muito”. Ok, mas quando o assunto abordado de modo geral alfineta questões de importante reflexão, não adianta abraçar a alienação e pensar que está tudo bem. Lamento.

2. Não julgue o local sem conhecer a sua cultura. A França pode ser linda e encantadora, mas como qualquer outro local do mundo, possui seus problemas. Nem tudo são luzes, bonjour, croissants e eau de parfum. A série mostra nitidamente uma jovem deslumbrada que cai de paraquedas em outro país e começa a encantar a todos como se fosse mágica, conseguindo as coisas como se tudo fosse fácil e, aparentemente, com uma conta bancária ilimitada – a julgar pelas roupas que veste todo o seriado. Não sei quanto a vocês, mas assistente aqui no Brasil mal consegue almoçar e se deslocar do trabalho. Nos EUA o assistente ganha bem? Na França ele pode desfilar com lindas roupas e calçados? “Ah, mas é ficção, Tina”. Sim, é. O problema disso, meu amigo, é que se reforça a ilusória glamourização de que trabalhar com arte, moda, design, marketing é super fácil e simples. Reforça a ideia equivocada que basta ser brilhante aqui e ali, e deu.

3. Conseguir followers é muito mais fácil do que manter followers. A série mostra apenas o número de seguidores da conta de Emily aumentando e todos curtindo e comentando as postagens. Na vida real, não é nada assim. Inclusive, um real criador de conteúdo sabe muito bem o que é destinar horas de seu tempo para estudar e criar um material, conseguir 3 que o seguem hoje para descobrir que 8 deixaram de seguir amanhã. Não é fácil. Nem todo o conteúdo emplaca, não importa que seja bom. É preciso analisar o algoritmo, é preciso ser “RELEVANTER” antes de “INFLUENCER”. Brincadeiras à parte, eu digo e repito que prefiro mil vezes meus 2 mil apoiadores no Instagram do que 200 mil seguidores que não comentam, não interagem e não promovem o diálogo. Aliás, se quiser me apoiar, este é o meu instagram.

4. Viver para trabalhar ou trabalhar para viver? A série aborda um lado irritante que indica os americanos como trabalhadores e os franceses como os preguiçosos. O estilo de vida #workaholic geralmente apenas nos deixa doente. E o pior de tudo é que, aqui no Brasil, não temos escolha. Na maior e esmagadora parte das vezes, se tu não trabalha até adoecer, não consegue vencer as contas que chegam em levas e mais levas. Seria ótimo se todos pudessem trabalhar 2h por dia e ter o restante do tempo para relaxar, curtir com a família e amigos, aproveitar a vida. Na verdade, o que temos é um sono que nunca é vencido, um cansaço mental que nos assola e uma tristeza que vem e vai nos mostrando o quanto precisamos repensar nossas carreiras. É ou não é?

5. Cultura x estereótipos: generalizar um povo tão superficialmente é desrespeitoso. Vestir uma boina e arriscar meia dúzia de palavras em francês não te faz um nativo ou um entendedor da cultura francesa. A série toda é um festival de clichês. O primeiro almoço de Emily in Paris é um daqueles pães de desenho animado, compridos e que são vendidos em saco de papel. Ela começa o dia mordendo algo que parece uma bomba de chocolate e fazendo caras e bocas em um vídeo para o Instagram.

6. Comprar moda x entender moda: Emily pode estar vestida de grandes marcas dos pés à cabeça, mas definitivamente não entende nada sobre moda. Sempre trabalhou com marcas farmacêuticas e, ao entrar na Savoir, resolveu que cuidaria do mercado de luxo, sem nenhum conhecimento sobre. “Ah, mas ela não disse que era creator” – e nem precisa. O mercado de luxo é o mais competitivo e complicado de se entrar. Quem trabalha com moda, pesquisa e comportamento, desenvolvimento, sabe. Não basta querer e simplesmente ser. Ou fingir até conseguir. Inclusive, se vestir dos pés à cabeça com tantas marcas assim é brega. Muito brega. Quem realmente tem dinheiro e poder aquisitivo não ostenta dessa forma o tempo todo: apenas veste o que gosta e o que pode adquirir. A relação da Emily com a moda é uma grande tentativa de forçar a barra e nos fazer engolir que ela não é uma La plouc – caipira, conforme seus colegas a chamaram em um dos episódios.

7. Antes de uma grande reunião de negócios, prepare-se. Não, não basta vestir preto, apenas. “Ah, mas ela se preparou, até vestiu preto”… não. Emily não estudou a fundo a marca “Pierre Cadault“. Em uma primeira reunião com o estilista, não apenas não o encantou, como ainda demonstrou o seu despreparo. Foi para a reunião com um chaveiro de coração na bolsa e ainda foi chamada de Ringarde – antiquada, deselegante. Outro ponto importante que reforça esse meu argumento de despreparo de Emily: ela quer trabalhar com moda e luxo, mas não pesquisou a fundo para saber que quem faz as escolhas de marketing de Pierre é seu sobrinho. Poft! Ao contrário do que mostra a série, na vida real, tenta, apenas tenta ferir o ego de um grande profissional que trabalha com moda, indo conversar diretamente com o estilista – que é a alma criativa, mas que não decide nada na prática. Só tenta. Nunca mais na vida tu entrarás no escritório novamente. Na série, o quanto mais fútil e despreparada Emily parece, mais encanta os homens que querem porque querem a levar para a cama. Argh!

8. Para engajar, é preciso interagir. A série cita que o engajamento é importante, mas em nenhum momento mostra Emily interagindo com a sua audiência. Isso foi simplesmente uma das coisas que mais me irritou. Se eu criar conteúdos e simplesmente não responder aos comentários, quero ver se meu perfil cresce alguma coisa. Isso não existe! É preciso haver conexão, troca real, comprometimento. Emily até fala que a maioria das infuencers de um evento mencionado na série não se importam de verdade com as marcas. Ok, isso é fato. Sabemos que muitos profissionais do ramo querem mesmo é receber mimos aqui e ali. Mas a verdade é que os conteúdos de Emily não são a redescoberta da pólvora para ela ser tão enaltecida assim. Não é fácil ser bom em alguma coisa. SÉRIO. Demanda muito tempo, muita dedicação e, acima de tudo, autocrítica.

9. Não somos brilhantes o tempo todo. Nem todas as nossas ideias são aceitas, nem sempre contornamos a tudo com um sorriso e uma gracinha. A verdade é que recebemos muito mais “não” do que “sim”. E isso se chama “vida”. Essa impressão de que tudo é fácil e a criatividade é algo que surge do nada e do além, é muito falsa. Eu trabalho com criatividade todos os dias e afirmo: eu não sou genial ou brilhante o tempo todo, nem sempre tenho ótimas ideias e sim, já aconteceu de eu entregar um projeto que não amei, mas o cliente amou e então tá tudo certo. Ter os contatos certos, as ideias certas, saber o timing certo para postar e divulgar alguma ideia, meus amigos, é duro.

Mas a série continua famosinha no Netflix Brasil e anda pipocando resenhas, textos e análises sobre ela. A atriz (Lily Collins) acabou se enganando em uma entrevista e disse que achava que Emily teria por volta de vinte e poucos anos, arriscando 22 anos.

Pronto! A internet foi à loucura, porque realmente, essa idade seria impraticável tendo em vista o cargo que a Emily ocupa e o seu visível poder aquisitivo, certo? E então, bem humorada, a atriz postou um story brincando que “embora Emily não tenha 22 anos na série, ela bem que parece ter, às vezes”, fazendo menção à grande imaturidade da protagonista. Olha o story que a atriz publicou sobre isso. Eu amei!

Compartilho com vocês algumas razões para não acreditar que Emily tenha apenas 22 anos. Vamos lá?

  • Quando a chefe de Emily descobre que está grávida, ela decide não ir à França e indica Emily ao cargo que ela ocuparia. Ela não indicaria uma moça tão inexperiente para esse cargo. Aliás, isso é outro ato falho da série: nunca jamais uma assistente que cuida de contas farmacêuticas passaria a cuidar de contas de luxo do dia para a noite.
  • Com 22 anos, no melhor dos cenários, Emily seria recém-formada. Se ela começasse a faculdade aos 16 e, digamos que levasse 5 anos estudando, com 22 anos ela estaria em seu primeiro emprego. Emily fala que possui pós-graduação, então, a idade de 22 anos fica mais impossível ainda.
  • Ninguém, com 22 anos e apenas um ano de carreira, decola desse jeito em uma primeira oportunidade de trabalho. Desculpa, eu não conheço ninguém. Tu conhece? O que eu sei é que se for para crescer na raça, eu que o diga: passei dos 30 e as coisas começaram a acontecer faz poucos anos. Emily veste-se muito bem para alguém que está trabalhando na área apenas há 1 ano. Com 22 anos, ela seria no máximo assistente. E bem, Chanel, Prada, Kenzo e demais marcas que ela veste na série, não caberiam em seu orçamento.
  • Ou melhor, correção: Emily poderia segurar o #look sim, se viesse de família rica. Mas conforme ela fala em um dos últimos episódios, ela morava no subúrbio de Chicago com sua mãe, professora de matemática – então rica a família não é.

Tem outro aspecto que me irrita muito na série, também. Tudo gira em torno de sexo, inclusive no trabalho. Não sei de vocês, mas eu jamais permaneceria em um ambiente onde trabalho e cama se misturassem tanto. Ok que não podemos esquecer que essa série é do mesmo diretor de Sex and The City. Bem, isso explica muita coisa… mas mesmo assim, será mesmo que toda a série precisa misturar tudo assim? Cantadas de clientes, cliente que sai com a chefe da Emily mas também dá em cima dela… Argh2!

Para finalizar, todos nós podemos ser criadores de conteúdo se soubermos comunicar o que desejarmos sobre as nossas áreas de atuação com propriedade. Mas fingir que sabemos de tudo, o tempo todo, deve ser muito cansativo. Só de imaginar, me cai a pressão e fico com sono… ZzZzZ… E na era da Internet, #fakenews e Google, os sabichões brotam do além. Sempre tem alguém para aconselhar daqui, dar uma “dica” dali, indicar um tutorial de lá.

Para não ficar para trás, muitas vezes entramos nessa onda desastrosa e tentamos surfar nesse fingimento, na tentativa de parecermos interessantes e interessados. Não, corra disso! Aproveite o momento no qual percebe que não sabe de algo, para aprender algo novo. E caso não saiba e também não queira aprender, contrate quem saiba. Que tal? Proponha uma parceria, junte forças. Eu sei que tem muitos por aí que fingem até conseguir alguma coisa e até conseguem. Mas eu nunca quis pautar o crescimento da minha carreira em mentiras. Sempre gostei das coisas simples e claras, objetivas e reais. E quando percebo que não sei algo, me pergunto se eu não poderia, mesmo, aprender mais sobre esse algo. Geralmente a resposta é sim e eu saio aprendendo algo novo. Ou ampliando o conhecimento sobre algo que eu até sei, mas que quero saber mais.

E se um conhecido teu fizer sucesso com um conteúdo, tente não desmerecer o seu esforço. Um real criador de conteúdo dá valor para o esforço de outros criadores de conteúdo. Larga mão desse ego, aí. Foca a tua energia em fazer mais e melhor, aprofundar conteúdos e responder aos 2 ou 3 comentários de tuas postagens. São poucos, não levará muito tempo para responder. Eu te garanto. E é isso que te fará engajar de verdade.

Não finja saber. Busque aprender. Não pense que Emily representa o real criador de conteúdo, pois ela não representa. É apenas uma moça branca, bonita e muito sortuda, com algumas sacadas legais, uma gorda conta bancária e um carisma fora do comum que abre portas e mais portas apenas porque ela existe. Eu te asseguro que na vida real, só o – bom – trabalho te fará crescer. E bem, não é fácil ser bom em algo. Mas é possível.

#emilyinparis #mercadocriativo #conteudo #influencer #marketingdigital #branding #comunicação

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