Por amor ao filho que eu possivelmente não terei

O meu texto de hoje soará polêmico, mas não é exatamente isso que eu desejo. Assuntos controversos sempre geram dois lados de uma mesma moeda: o direito das pessoas terem a sua opinião sobre eles; o dever de precisarem arcar com as consequências dessas opiniões. É, eu sei. A vida é isso mesmo e longe de ser justa, é o que temos.

Ando incomodada com o tanto que me perguntam sobre quando eu terei filhos. Sim, a mulher passa dos 30, lá vem a enxurrada de perguntas nesse sentido. Não há muita empatia nem no lado feminino da força. Há um acordo não falado sobre enaltecer as mulheres que decidem ser mães e demonizar aquelas que não sentem esse desejo ou que não podem ser mães.

No meu primeiro relacionamento, eu sonhava em ser mãe. Queria uma menina linda e educada, amável e estudiosa, que puxasse a mim no amor aos livros e tivesse os olhos azuis do pai. Fui criada para sonhar com isso, como um degrau a mais que, quando subido, me elevaria mais para perto de meu sucesso enquanto mulher.

A Martina dos 20 e poucos anos romantizava a vida e o mundo, pois foi criada para obedecer e ser gentil, dizer apenas sim e evitar falar palavrão ou discordar dos mais velhos. A Martina de 20 e poucos anos achava que aos 30 estaria bem sucedida, mãe de duas crianças, com sua casa própria e o seu carro, trabalhando em alguma multinacional e sendo bem remunerada por isso.

Tanto me foi prometido, como millennial que sou, que estranhei que nada caiu no meu colo como me disseram que cairia. Pelo contrário, eu que lute.

Bem, a Martina chegou aos 30 e levou um pé na bunda do ex, recebia o salário de R$ 2200,00 trabalhando 10 horas por dia, 5 dias por semana, voltando a morar com os pais (pé na bunda, lembra? Noivado acabou e voltei pra casa dos meus pais) e se achando um tremendo de um fracasso. Em todos os sentidos.

Aos 30, noivado acabado, um mestrado para concluir e uma autoestima em cacos para colar, me dei conta de que eu queria muito mais da vida. Ou melhor: resolvi pensar, pela primeira vez em 30 anos, o que era mesmo que eu queria da minha vida. E comecei a refletir tantas coisas, mas tantas coisas…

Eu acho lindo isso: ser mãe. De verdade. Acho lindo, tantas amigas realizadas sendo mães. Acho lindo vê-las tão amorosas, queridas e presentes. Sinto orgulho delas e vejo o quanto de coisas elas deixam de lado por conta da maternidade. São fortes – não o tempo todo – mas firmes, quando precisam ser.

Cresci tendo uma mãe maravilhosa que amo demais, então sim, ela sempre será o meu maior referencial nesse sentido.

Aos 30 decidi que queria viver uma vida da qual eu me orgulhasse, não que apenas desse orgulho aos demais. Decidi que queria que a minha carreira deslanchasse, que esculpiria as oportunidades que desejasse e que nada me impediria de alcançar meus objetivos. Aos 32 estava indo para São Paulo, com isso forte na minha mente. Na mala, sonhos, R$ 790,00 e 3 currículos:

  1. Apenas com os meus dados pessoais e escolaridade ensino médio
  2. Meus dados pessoais e graduação em design gráfico
  3. Um currículo completo, constando alguns de meus muitos cursos de extensão, minha graduação, pós e mestrado.

Se eu precisasse varrer chão, aprenderia. Se precisasse vender roupas, venderia. Estava decidida a correr atrás. Nesse meio tempo, já namorava o meu noivo atual e por sorte e generosidade, fui recebida na casa dos meus sogros, pois eles me acolheram e com eles morei por 1 ano e 7 meses.

Fui indicada por uma amiga e entrei na agência de marketing para a qual presto serviços até hoje. Aliás, ontem, dia 11/10, fez 4 anos que estou trabalhando na mesma agência. Bem… como devem imaginar, filhos, nem pensar.

Não cabia nesse contexto todo. Aos 34, eu e meu noivo fomos morar juntos em nosso primeiro apartamento. Eu adorava aquele apartamento, pois mesmo pequeno, era nosso canto, as contas pagas e nosso amor crescendo. Mas… crianças? Nem pensar. Não dava.

Hoje estamos em um apartamento bem maior, espaçoso. E hoje, minha carreira está deslanchando. Os projetos que eu estou abraçando, estão me deixando realizada e feliz, consigo fazer planos e pensar no futuro, investir em sonhos que sempre quis e que nunca pude sonhar. E puft. O desejo de ser mãe? Adormeceu.

Penso que sim, um filho é a coroação do amor de duas pessoas que se respeitam e que caminham juntas na estrada da vida. É lindo. Gosto de pensar que um filho é a junção do que há de melhor entre duas pessoas que se amam. Hoje há amor, há espaço, há respeito e condições financeiras para isso… apenas não há a certeza de que é justo colocar mais uma vida nesse caos de mundo.

Eu respeito quem – por escolha ou acaso – resolve ser mãe. Admiro. Mas sabe o que eu sinto?

Gostaria que esse mesmo respeito também fosse destinado a mulheres que assim como eu, não pensam em ser mães. E não há. Não há empatia e nem respeito.

“Ah, mas Deus proverá! Dá-se um jeito, Tina!”
“Ah, mas tu fala isso porque tu não és mãe, pois quando olhar a carinha do teu filho pela
primeira vez…”
“Ah, mas tu nunca será completa sem ser mãe”
“Ah, mas a Maruska e o Joaosinho querem muito ser avós, não? Vai negar essa alegria aos teus
pais, Tina? Eles vão morrer sem sentir a alegria de serem avós?”

Sim, eu já ouvi isso tudo e muito mais. Mulheres que decidem não ser mães, são julgadas o tempo todo. São as egoístas que só querem saber da carreira; são as incompletas, que não pariram uma nova vida; são aquelas que nunca sentiram a plenitude de ser mulher, pois não cumpriram com o papel social que lhes é imposto desde que o mundo é mundo.

Ainda bem que meus pais me libertaram dessa culpa. Já conversei com eles, muito. Eles entendem meus pontos de vista. E claro, meu noivo também concorda comigo. Vou explicar a vocês um lado dessa história toda, que não é assim tão preto no branco. Tem uma escala de cinzas aí no meio, que realmente me faz pensar.

Eu acho lindo quando a mulher decide ser mãe tendo condições psicológicas, emocionais e financeiras para isso. A criança vem como a cereja do bolo, para trazer ainda alegria à sua vida. Mas engana-se – e muito! – quem pensa que ter um filho é fazer um investimento. Não, longe disso.

Um filho, é uma nova vida. Projetar ambições, sonhos e esperanças em um novo ser que não pediu para vir ao mundo, é cruel. Se optar por ser mãe, cara amiga leitora, saiba que a tua criança tem o direito de viver a sua vida conforme decidir viver. Não, ela não veio ao mundo para satisfazer aos teus caprichos. Bem, pelo menos, não deveria ter sido concebida para esse fim.

Uma criança exige tempo, amor e atenção. “Não basta parir e entregar algum eletrônico luminoso na mão do bebê para anestesiá-lo por alguns segundos. Filho, é para sempre.” E sabe? Como julgar a mãe exausta que chega em casa após uma jornada tripla de trabalho e só quer fazer xixi em paz, e por isso entrega o seu celular à criança? Não posso julgar isso também. Eu não sou mãe. Entende? É tudo complexo, é tudo delicado.

Se pensarmos bem a fundo sobre essa questão, é injusta toda a vinda de uma nova criança à Terra. Elas nascem, se tiverem sorte em nascer em famílias com condições psicológicas e financeiras favoráveis, talvez tenham alguma chance de se sentirem realizadas algum dia. Se nascerem em meio às privações de todos os tipos, nascerão apenas para ver ser negada toda a oportunidade que desejarem. E serão muitos os nãos que ouvirão.

Eu, branca, nascida em uma família que sempre me deu amor, carinho, bons colégios e tudo que eu precisava para crescer bem, só tive chance de crescer profissionalmente após sair da minha cidade que me viu nascer. Isso com diploma de graduação, inglês, pós-graduação e mestrado. Nenhuma das grandes empresas que conhecem a mim e aos meus pais, deu uma real oportunidade de crescimento. Não importava o quanto eu me empenhasse em mostrar meu trabalho, nunca fui ouvida. Meu primeiro emprego veio por parte de uma empresa de uma cidade vizinha, que realmente me ofereceu uma oportunidade e me ensinou grande parte do que eu sei. E mesmo assim, batalhei para conseguir a minha primeira oportunidade de trabalho.

Sim, em uma das empresas, estava tudo certo para eu começar a trabalhar, deixei meus documentos e tudo no RH, para um dia depois, por telefone, receber a notícia de que era para eu ir buscar meus documentos, que eles haviam mudado de ideia.

Em outra, a teoria nunca esteve aplicada na prática real do reconhecimento e respeito ao capital humano. No meu primeiro dia de trabalho, já ouvi de colegas o aviso: “aqui é um ninho de cobras. Não acredite em nada que ninguém te disser, viu? Inclusive, não acredite em nada que eu disser! Hahaha” – bela recepção, não? The Best.

Eu me questionava de verdade por que raios as coisas não davam certo para mim. Eu me esforçava tanto, me dedicava tanto. E quando menos percebia, estava envolvida em alguma fofoca e sendo hostilizada. Ah, que beleza.

Cheguei a não conseguir emprego ‘por ser bonita demais’. E já cheguei a não conseguir emprego por ser gorda. Sim, já cheguei a ouvir, com todas as letras: “nunca recebemos um cv tão maravilhoso quanto o teu, com tanta experiência na área criativa e tantos cursos, mas infelizmente, não tens o perfil da empresa”.

O perfil da empresa: mulheres magras vestindo Chanel e calçando Louboutin na área de estilo. Se eu penso nisso tudo, em como o mercado de trabalho está cruel e no quanto eu tenho que me esforçar e trabalhar duro para ter as condições de seguir vivendo bem e sonhando, desculpa, não entendo como caberia uma criança na minha vida. Agora que as coisas estão dando certo e que eu estou segurando as rédeas da minha vida e do meu futuro, eu não conseguiria abrir mão dos frutos que começo a saborear após 14 anos de lutas.

Eu quero ser mãe? Quero. Eu serei mãe? Possivelmente, não.

E a resposta a isso é bem simples: eu tenho medo de colocar uma criança no mundo e não poder oferecer a ela o mesmo que me foi oferecido. Tenho medo de ter que olhar nos olhos dela, algum dia, e ter que explicar porque ela não pode sonhar com alguma coisa.

Eu tenho medo de ter uma filha, ela crescer e começar a namorar alguém que não a respeite e ela acabar morta por ciúme. E o meu medo não é infundado. O STF acatou absolvição por “defesa da honra”, em caso de feminicídio. Sabia? Leia aqui.

Não, não estamos falando de algo do século XIX. Estamos falando de uma notícia divulgada dia 30/09/2020 – mais uma decepção desse ano caótico. Então, é isso. Eu posso ter uma filha e ela ter o desprazer de se relacionar com alguém violento e possessivo que ache que ela mereça morrer e sim, eu corro o risco de ver a justiça do meu país absolver o culpado. A vida, meus amigos, não vale mais nada. E a carne da mulher, vale menos ainda no mercado.

Sim, eu gostaria de ser mãe. Sim, seria maravilhoso. Eu amo meu noivo como jamais pensei ser possível amar a alguém nessa vida. Seríamos bons pais, disso eu tenho certeza. Mas quando penso em como é difícil ser mulher, eu travo.

Ser mulher, é ter que provar, o tempo todo, que somos capazes, que damos conta. Ser mulher, é chorar quieta no banheiro da empresa após ser humilhada por algum colega homem, e não poder fazer nada. Ser mulher, é ter que ser grossa ou se fazer de burra, para não sofrer muito e crescer em alguns ambientes “criativos” que existem por aí.

Ser mulher, é ter que ralar 3x mais para provar ser competente, porque a falta do pênis já nos diminui a ser inferior e que dá ‘despesas’ às empresas – aqui em SP, algumas empresas não contratam mais mulheres porque elas engravidam. Devem engravidar com o dedo, mesmo, né? Pois é, devem. […]

Ser mulher, é precisar optar, todos os dias, por decisões difíceis e dolorosas, e mesmo assim, não importa o caminho escolhido, ser apedrejada por tê-lo escolhido.

Se eu quero ser mãe? Quero.

“Ah, mas tu está sendo covarde! Ensine a tua filha a lutar! A exigir por seus direitos!”

Eu fui ensinada a lutar. Eu lutei. Eu luto. Mas eu sei o quanto isso é difícil, o quanto eu queria poder me mostrar vulnerável em alguns momentos, e isso ser negado. Eu sei o que foi engolir o choro, quando em uma feira de calçados do sul, ao ser apresentada por um de seus gestores à um conhecido dele, precisei ouvir desse sujeito, que literalmente lambia a sua boca enquanto perguntava: “mas ela é boa? Hahahaha” e não receber apoio do meu ex-gestor, que riu junto. Eu sei como foi difícil, com apenas 2 semanas de trabalho em uma empresa, ter que gritar com um superior que me assediou verbalmente com cunho sexual, em frente a toda uma produção repleta de homens.

Então não, eu não sou covarde. Eu sou apenas uma mulher lúcida e que percebe bem claramente os reais desafios de ser mulher nesse mundo. Por isso que eu não serei mãe.

Talvez tu seja mãe de um menino, Tina!

Ok, mas e esse menino? Por mais que eu o eduque, será que ele saberá respeitar as mulheres?

Bem, talvez eu mude de ideia e por favor, se isso acontecer, não me crucifiquem. Ok? Grata. Mas agora, nesse momento, com a atual percepção de tudo que a gente vive, sério, não me imagino mãe. E não penso nisso, não porque eu não quero ser mãe. Não pretendo ser mãe, porque não ser mãe talvez essa seja a maior prova de amor que eu possa dar ao filho que eu possivelmente não terei.

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