Sobre o elogio que, na verdade, não elogia

É importante cuidarmos como nos comunicamos. Uma comunicação falha pode trazer muita dor de cabeça, além de mágoas a quem receber as palavras não tão bem quanto imaginávamos.

Há um provérbio chinês, que eu particularmente, gosto muito. Diz o seguinte:

 “ao disparar a flecha da verdade, primeiro adoce a sua ponta no mel”

O que isso quer dizer? Sempre há um modo gentil e amável de expressarmos a nossa opinião. Que possamos optar sempre por este caminho de respeito e de cordialidade.

Vou contar algo que aconteceu comigo e depois algo que aconteceu com uma conhecida minha.

Estava eu, pleníssima, correndo com minhas tarefas e afazeres, quando na semana passada recebi um comentário do além – mesmo! – de uma seguidora do Instagram (seguidora mesmo, pois pelo comentário verão que não me apoia, então não merece a alcunha de apoiadora).

Dizia o comentário:

“[…] tudo que eu curto das tuas postagens, é genuíno, tá? Embora teu trabalho seja diferente […]”

  1. A opinião não solicitada, chega do além.
  2. Ela curte meus conteúdos “embora” meu trabalho seja diferente.

Parei, pensei… sim, isso foi uma alfinetada gratuita. Outch!

No meio criativo, o que mais há é competição, intriga e puxada de tapete. Desculpa ter que desmistificar aí o universo cor-de-rosa que vocês acham que existe dentro de atividades que usam a criatividade, mas eu preciso dizer que infelizmente a ‘pegada aqui é bruta’. Por isso mesmo, venho realizando um trabalho intenso e de formiguinha, tentando deixar o ambiente menos tóxico, mais inclusivo, mais plural. Mas não é fácil. Tem dias que, sinceramente, o que eu mais queria é ter a luva do Thanos e plim, estalar os dedos e fazer sumir as falas e atitudes sem noção das pessoas.

Thanos com a Manopla das Joias do Infinito. Divulgação Marvel.

Brincadeiras nerds à parte, isso não é possível. Então o jeito é mesmo, relevar, superar e me blindar.

Eu lutei muito para ter um estilo só meu, autoral, com o meu DNA. Aliás, ainda luto. Estudo muito, leio muito, aprecio muitos artistas e criativos ao redor do mundo. Sim, o meu trabalho é diferente do comum, do visto por aí. E eu amo isso. Batalhei por isso! O problema do comentário da ‘amiga’ ali, foi o uso do ‘embora’. O “embora” dá uma ideia de apesar de. E isso soou sim, pejorativo. Eu sei que a maioria das pessoas não faz as coisas na maldade. Mas esse ímpeto quase visceral de sair emitindo opiniões sobre tudo e sobre todos mesmo sem ter sido questionado, deve parar. É deselegante. É ruim. Não agrega em nada, a ninguém.

Sou da opinião de que “se não tenho nada de bom a falar, opto pelo silêncio”. E claro, eu já possuo mais de 14 anos de estrada na minha carreira, então a mim, isso realmente não atinge – tanto – quanto já atingiu antes. Mas e aos que estão começando? Se os principiantes receberem um soco no estômago assim, logo no começo, qual é a chance de continuarem tentando?

Até postei sobre isso no perfil do meu estúdio @martiina.viegas, esses dias aqui.

Eu acredito em uma cadeia de ações colaborativas: eu faço algo legal para alguém hoje, esse alguém retribui amanhã de modo natural e engajado, contribuindo com outra pessoa que assim como ele, sentiu-se genuinamente grato pela ação anterior. Não é difícil fazer algo bom. Basta confiar no nosso potencial, entender que somos multipotenciais e que colaborar sempre será maior do que competir.

Mas a verdade é que a gente escuta umas coisas, de vez em quando, que sinceramente? Não dá para entender. É um ‘elogio’ que não elogia. Então, para que dispará-lo? Mesmo com tantos anos de carreira, confesso que ainda fico surpresa. Eu cuido para deixar a todos, sempre bem. Se eu não posso enaltecer, não falo nada. Quando pedem a minha opinião, comento sobre o que acho em relação a determinado assunto, mas nunca ofendo do nada.

Procuro evitar ao máximo o desconforto. Mas há quem ame deixar os demais sentindo-se como peixes fora d’água.

Na contagem #day156 de #quarentenaestampada de hoje, falei sobre o sentimento de “peixe fora da água” que a gente sente, às vezes.


Então, separei aqui algumas coisas que eu gostaria que fossem evitadas na fala que “elogia” um criativo:

1. “Amei as cores!” – ok, as cores podem ser lindas em uma obra, em uma ilustração. Mas sério mesmo que só isso chamou a tua atenção? Não foi o empenho, o esforço, os traços, as horas de trabalho? Se gostar das cores, ótimo, elogie. Mas busque elogiar além disso. O trabalho único do criativo, com seu olhar e sua expressão, vale mais do que a combinação de cores que quase sempre ocorre por acaso, fruto das tintas de produção em grande escala de uma marca como a Pentel, por exemplo. Uma menina que está começando na área e já tem um ótimo trabalho, me disse ainda esses dias o quanto estava triste justamente por que a maioria dos elogios elogiam as cores das obras, e não fazem menção às horas de trabalho árduo que ela destina a cada trabalho. Isso é desencorajador. Isso machuca, magoa.

2. “Que legal o mockup!” – o designer que aplicou a estampa em um mockup (protótipo, que pode ser de qualquer objeto e que serve como apoio visual às ideias gráficas do criativo), nem sempre tem clientes reais para mostrar o seu trabalho. Ele aplica no mockup para mostrar o que pode criar e fazer. Então sério, ao invés de elogiar o “mockup”, valide a estampa, valide a criação. Precisa mesmo apontar que é mockup? Não, né?

Exemplo de estampa de minha autoria que apliquei em mockup de vestuário feminino moda praia.

3. “Nossa! Que diferente!” – sim, a arte que é diferente, veja bem, é autoral e não é cópia. Mas dito assim, parece pejorativo. Parece algo que nunca foi visto antes, algo ruim e exótico. Se não tiver nada de positivo a dizer, sério, não diga. Nenhum criativo gosta que digam que a sua arte é “diferente”. Troque o termo por única, personalizada, com o DNA do artista/designer/ilustrador, autoral.

4. “Nossa, teu trabalho é bem básico e simples né? Moderno” – ter um traço limpo, não significa que ele seja simples. Não significa que ele foi feito em 5 minutos.

Curtidas aqui e ali nas redes sociais são métricas do ego. Na prática, não ajuda em nada. Então, quer ajudar mesmo? Compartilha, comenta, salva os conteúdos dos criativos. Mostra que te importa. Curtir de modo robotizado, qualquer um curte. Apoiar mesmo, vai além da curtida: é preciso sensibilidade.

Cada um sabe o quanto já caminhou para chegar onde chegou. Não devemos desmerecer o trabalho alheio, camuflando alfinetadas em falsos elogios. Arte é sensibilidade. Que possamos ser mais gentis e menos maldosos.

Eu gosto mesmo é da minha arte assim, bem diferente. Isso mostra que eu consegui atingir o meu objetivo: consolidar minha carreira com amor e ética, acreditando no meu potencial e sem desistir. Espero de coração que todos os criativos possam sentir o gosto dessa alegria. E bem, enquanto uns e outros seguem competindo por aí, eu permaneço firme e forte no pensamento libertador que diz que juntos, somos sempre mais fortes.

Euzinha em frente a um painel em aquarela que acabei de pintar essa semana.

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