Eu e minhas mãos: quando eu me dei conta do quanto as amo

Há coisas tão importantes que acabamos não dando a real importância. É estranho, parece contraditório, mas é tão real. Elas estão sempre lá. Não sentimos falta daquilo que sempre tivemos. E por isso, tem vezes que não valorizamos como deveríamos. Podemos refletir sobre isso em relação a muitas coisas. Mas estar #emcasa, em isolamento, me faz entender melhor que é bom perceber nossa conexão com tudo e todos, dando mais valor a isso.

Nesse contexto, a pandemia trouxe a necessidade de lavar as mãos a todo o momento. Hábitos de higiene são importantes sempre, mas com um vírus como o Covid-19 nos espreitando em todos os lugares, foi preciso redobrar os cuidados. Álcool em gel na bolsa, água e sabonete, sempre que necessário. Lava aqui e lava ali, para perceber e agradecer.

Como designer, uso tanto as minhas mãos, quanto os meus olhos. São os bens mais preciosos que eu possuo. Olho, vejo e enxergo. Pego, traço, desenho. Meu estúdio de #narrativascriativas não existiria se não fosse pelos meus olhos e mãos. E então resolvi pensar sobre elas. Minhas mãos.

Aquarela e nanquim em papel Canson Montval. Ilustração de Martina Viegas

Minhas mãos me ajudam a selecionar os materiais que serão usados em cada projeto. São extensões dos meus olhos. Elas tocam, elas percebem, elas enxergam, a seu modo. Elas suam de medo ou de ansiedade. Elas vibram com a torcida pelo Brasil na Copa do Mundo. Elas acenam aos amigos que estão lá na esquina e que agora não posso abraçar.

Aquarela e nanquim em papel Canson Montval. Ilustração de Martina Viegas

Minhas mãos são lavadas uma, duas, 100 vezes ao dia. Elas sentem a água por entre os dedos, gotas de água escorrem pelas unhas e cutículas, deslizam pelos poros e umedecem a minha pele, hidratando e protegendo. Minhas mãos produzem alimentos, pintam paredes, penteiam meus cabelos, lavam meu corpo e limpam a casa.

Aquarela e nanquim em papel Canson Montval. Ilustração de Martina Viegas

Minhas mãos envelhecem junto com as demais partes do meu corpo. Já não são mais tão delicadas e o seu toque não é mais tão gentil como antes. O tempo passa por elas também. Reparei esses dias algumas novas linhas que o tempo desenhou em minhas mãos e achei bonitas: sinal de que estão vivendo, que estão sendo usadas, que fazem parte do meu crescimento e da minha evolução.

Aquarela e nanquim em papel Canson Montval. Ilustração de Martina Viegas

Minhas mãos sentem o sol, aquecem e são aquecidas. A sensação do sol em minhas mãos me lembram os dias frios e ensolarados no sul, comendo bergamotas com meus pais. Sinto saudade disso, desses dias. Mas sei que em breve poderei rever a minha família. Isso também aquece o coração. E sim, em breve desejo poder acariciar a Caramelo, o pet canino do clã Kirsch Viegas. Saudade.

Aquarela e nanquim em papel Canson Montval. Ilustração de Martina Viegas

Minhas mãos têm cicatrizes que me lembram do meu esforço. Minha mão esquerda tem cortes fundos. Um deles, conquistado com um corte de estilete, em um protótipo de cadeira que fiz na faculdade. O outro, conquistado ano passado, quando eu tentei cozinhar e não deu muito certo. É, lidas domésticas nunca foram o meu forte. Mas sabe? Minhas mãos são ótimas em tentar. Elas tentam, às vezes acertam e noutras, não. Mas elas também não desistem.

Minha mão direita tem calos que nunca sairão, mas eu me orgulho deles: quando decidi que seria designer, precisei correr para melhorar o desenho. Noites e noites desenhando, sem parar. A mão sangrou, calejou. Perdi as contas das vezes que fui trabalhar com a mão enfaixada e coberta de band-aids. Mas perdi as contas, também, das vezes que me orgulhei por ter criado algo através desse esforço.

Minhas mãos empacotam presentes e os enviam por Sedex à minha família. Minhas mãos pegam o telefone e recebem os agradecimentos e carinho de quem recebeu o pacote.

Aquarela e nanquim em papel Canson Montval. Ilustração de Martina Viegas

Minhas mãos digitam os textos das minhas colunas para o Drops. Cada dedo toca uma tecla e as letras formam palavras, frases e parágrafos que dão vida às minhas ideias e pensamentos.

Minha mão recebeu um anel de noivado lindo, que usa feliz e orgulhosa. Minhas mãos vivem comigo, todas as grandes aventuras da minha vida.

Às minhas mãos, ilustradas, vividas e percebidas, eu agradeço. Se hoje eu sou feliz e realizada, é por que aprendi a fazer o melhor uso dessas mãos não tão jovens, mas lindas, funcionais, importantes… e tão minhas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s