A pandemia da ignorância, despreparo, preconceito e descaso

Anda difícil acompanhar a ignorância do brasileiro, que anda a passos largos rumo à destruição de vez. Não, o brasileiro não deve ser ‘estudado pela Nasa’, pois o brasileiro é fruto aqui da Terra mesmo, dos erros e equívocos todos que nos fazem humanos, sem noção e sem respeito por nada e nem ninguém.

“Nossa Tina, que revolta!”

Sim, estou revoltada.

O texto de hoje é um texto em tom de desabafo e também de partilha de sentimentos. Precisamos repassar o que estamos vivendo e mudar. Já. Nessa última semana aconteceram tantas situações complexas que foi impossível escolher apenas uma delas para escrever aqui. Procurei fazer um apanhado de ideias em formato de resenha – BEM – crítica. Convido todos a refletir comigo.

No dia 11 de junho (anteontem), o comércio reabriu em São Paulo. Estou presa aqui há mais de 6 meses, sem poder voltar ao Rio Grande do Sul e rever meus pais e irmã. Tinha passagens compradas para maio, mas o voo foi cancelado. Então, sigo #emcasa, aqui em São Paulo, perplexa.

11.jun.2020 – Região do Brás movimentada durante a manhã / Imagem: Alex Tajra/UOL

Estamos no olho do furacão de uma pandemia, mas as pessoas parecem não ligar muito. Aglomerando-se nos shoppings populares, colocam-se em risco e facilitam a propagação do vírus. A reabertura foi criticada por médicos devido ao aumento do número de casos do novo coronavírus em São Paulo, que é o novo epicentro da doença. De acordo com a Uol, na quinta-feira, a capital de SP já registrava o acumulado de mais de 84 mil contaminados pelo vírus.

Carrinhos abarrotados de mercadorias, sacolas, aglomeração, máscaras usadas do modo errado: esse é o retrato do despreparo do nosso país em uma crise de saúde mundial como esta que estamos vivendo. Mas é só uma “gripezinha”, não é? O exemplo, que deveria vir lá de cima, não vem. A ignorância é doença crônica do Brasil.

11.jun.2020 – Fila para entrada de loja no Brás / Imagem: Alex Tajra/UOL

Leia mais AQUI.

De acordo com o site de notícias G1, em reportagem de 11.06 (leia na íntegra AQUI):

Ex-coordenador de centro de contingência para Covid-19 critica reabertura do comércio em SP e diz que pico ainda não chegou.
Dimas Covas disse a pesquisadores que reabertura do comércio é precoce e há possibilidade de lockdown: ‘Talvez a gente aprenda pela forma mais dolorosa’, salientou”.

Lockdown. Se o brasileiro não consegue sossegar em casa tendo a liberdade de ir e vir para fazer compras no supermercado e farmácia, o que dirá se ele precisar ficar realmente trancado em casa, aguardando o fim do isolamento social em real quarentena. Já pensou? O pior ainda está por vir, mas as pessoas de um modo geral estão vivendo como se tudo estivesse normalizado.

Normalizado. Aquele normal velho conhecido nosso, irmão do Despreparo e filho da Ignorância.

É surreal, simplesmente surreal perceber o quão despreparados estamos, em todos os sentidos. O pico da doença no Brasil ainda não chegou e, mesmo assim, ninguém parece dar muita importância. Não dá para acreditar que seja preciso que eu escreva sobre o óbvio, mas pelo visto, é necessário. Se pelo menos uma pessoa que ler o texto dessa coluna entender a importância sobre o que está escrito nela, já estamos no lucro. A batalha contra a ignorância é infinita, desgastante e preocupante. Ao que me parece, anda faltando soldados para combatê-la – talvez tenham todos optados mesmo é por consumir, aglomerados nas lojas.

Novamente de acordo com o site de notícias G1:

Com reabertura de shoppings, São Paulo tem filas e aglomeração. O dia não tinha clareado na capital paulista e o público já esperava o comércio popular do Brás acordar. Na Zona Leste, distanciamento social era impraticável.”

Leia mais AQUI.

Não há como ter distanciamento social desse modo. O jeitinho brasileiro burla até mesmo as condições básicas de segurança e de saúde, gente! Shoppings com filas para entrar, pessoas nas filas. Ok, eu sei: a economia está um horror, o desemprego só cresce e as pessoas precisam sobreviver. Sim, é verdade. Mas e cadê o papel do nosso governo nisso? Ah, claro. Já sei: está na distribuição dos 600 reais para os ricos que andaram fraudando o sistema de auxílio do país, enquanto os pobres seguem sem ter o que comer.

E se como tudo isso não bastasse, no meio de todo esse caos, a modelo e atriz Thaila Ayala achou prudente a criação de uma marca chamada Vir.Us 2020. Sim, parece piada. Mas não é.

Para mim, que trabalho com pesquisa e desenvolvimento de moda há anos, isso é apenas mais um clássico case que mostra que ter o capital para a criação de uma marca, não significa necessariamente estar preparado para a sua criação e implementação. Da mesma forma que ser modelo e vestir moda não significa conhecer moda e estar preparado para desenvolver coleções de moda. Ter capital e meios para divulgar uma marca não significa que a pessoa saiba o que está fazendo.

Tudo nesse case é de extremo mau gosto. Pessoas morrendo todos os dias; mortes passando dos 40 mil aqui no Brasil; o desemprego crescendo de modo surreal: não há como sustentar que “viralizar o amor” – slogan da marca – seja uma boa ideia de lançamento. Despreparo, desconhecimento sobre a realidade vivida pelas pessoas diretamente afetadas pelo Covid-19, ausência de uma equipe que saiba trabalhar gestão de crise e acima de tudo, uma estrondosa falta de empatia.

A repercussão negativa foi tanta que, após isso, mudaram o nome de Vir.Us 2020 para Amar.ca 2020.

Thaila Ayala, ao centro, rodeada por modelos sem máscaras e sem respeitar o isolamento social, em foto de divulgação dos produtos de sua marca. Imagem divulgada no perfil da Amar.ca 2020 do Instagram

Todas as fotos sorrindo, tie dye como única estampa nas peças – uma tendência datada que dificilmente resistirá até o final da pandemia – usada para remeter ao desenho uma ‘viralização’ duvidosa, modelos juntos e sem máscara em um momento onde os cuidados devem ser redobrados.

Já estamos cansados de ver tantos casos de atrizes/modelos/cantores que “criam” e “co-criam” para grandes marcas, emprestando seus nomes e prestígio enquanto as criações são desenvolvidas por designers que nunca aparecem ou recebem notoriedade. Isso não é novidade. Mas a falta de tato da Thaila e amigas sócias do empreendimento foi, no mínimo, desrespeitosa.

O case “Vir.us 2020” – agora AMAR.ca 2020 – reforça a importância de uma equipe interdisciplinar na gestão criativa de marca e desenvolvimento de produto. Duvido que haja um responsável por pesquisa de moda e comportamento; um especialista em mercado e um designer de estampa competente nesse projeto. Há quem diga, também, que tudo isso não passou de um golpe de marketing para “viralizar” a marca, longe de ser amada. Será? Realmente interessante como o novo nome da marca surgiu do dia para a noite, não é? De qualquer modo, lamentável.

Texto de um dos posts de lançamento da marca:

“2020: um vírus fez estremecer o planeta, fechar fronteiras, monitorar governos, segregar pessoas, amedrontar consciências e trancar portas. Imagina quando for o vírus do amor, da empatia e da união entre todos os seres? A Vírus 2020 convida vocês para viralizar o melhor da vida e construir um novo mundo mais colorido, vamos juntos! <3”

Oi? Sério mesmo? Sinto muito, mas acredito que as pessoas que estão perdendo seus familiares, empregos e esperança, não estejam motivadas a relacionar amor e vírus em uma mesma sentença. Muito menos através de uma marca com esse nome. Ok, agora é Amar.ca 2020. Mas a real marca que foi deixada mesmo, é a de que empatia e amor passaram muito longe do processo de naming e branding, senhora Thaila.

Leia mais AQUI.

E agora vamos ao tópico final deste texto.

Dia 31 de março foi lançado o perfil do Moda Racista, no Instagram.

O perfil conta hoje com mais de 26 mil seguidores e vem causando reboliços no cenário da moda – o que eu, particularmente, estou amando! Moda Racista abriu espaço para denúncias dos absurdos enfrentados pelos colaboradores da Moda Brasileira. Uma série de relatos de denúncia de preconceito contra negros, gordos, comunidade LGBTQ+ etc, vem sendo compartilhada nos stories e feed do perfil de modo anônimo ou declarado.

Uma das denúncias feitas pelo Moda Racista, repercutiu a ponto de um dos denunciados ser afastado de seu emprego. Segundo matéria da Veja, de 11 de junho (Leia AQUI).

“Riachuelo suspende diretor de publicidade após denúncia de racismo”.
Ironia do destino: Ralph Choate foi quem descobriu o garoto-propaganda Sebastian, nos tempos à frente da C&A. ‘Peço desculpas’, disse ele.

Ralph Choate. Publicitário que descobriu o modelo Sebastian, garoto-propaganda da C&A por muitos anos: denúncias de comportamento racista à frente da Riachuelo – Reprodução/VEJA

Glória Coelho e Reinaldo Lourenço são citados como preconceituosos em diversos posts do Moda Racista. Outras marcas como Osklen e Animale também estão no paredão de críticas e denúncias. Maquiadores, modelos, estilistas assistentes de grandes nomes da moda brasileira estão trazendo à tona uma série de relatos que estão sacudindo o nosso pensar no meio criativo. Não basta simplesmente um post todo preto com #blacklivesmatter ou #blackouttuesday se, na prática, nos calamos.

Os absurdos vivenciados nesse país precisam ser expostos e tratados como parte da sua doença endêmica do descaso e preconceito. Temos uma dívida histórica com os pretos que fingimos não existir. Eu me pergunto até quando faremos de conta que vivemos alheios a tudo de ruim que nos cerca. Em que ponto da história da humanidade tudo começou a dar tão errado?

No perfil do Moda Racista há perfis fakes comentando em prol das marcas denunciadas. Tão lamentável que eu, sinceramente, nem sei mais o que dizer a respeito.

Sigo otimista? Sim. Sempre! Mas sigo mais lúcida do que nunca, também. Que possamos espalhar bom senso enquanto aguardamos o desenvolvimento das vacinas para o Covid-19, ignorância, despreparo, preconceito e descaso.

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