Vidas Negras importam, sim!

Havia preparado outro texto para a minha coluna dessa semana, mas não pude enviá-lo à publicação após tomar conhecimento do que aconteceu recentemente com George Floyd. Qualquer outro assunto que eu possa escrever agora, parecerá irrelevante perto do assassinato desse homem. Nós precisamos mudar muito como humanidade. Muito mesmo. Principalmente porque após todas as homenagens que foram feitas a George, há quem diga que “todas as vidas importam”. Sim, isso é óbvio. Todas as vidas importam. Mas agora, nesse momento, estamos falando sobre a importância das vidas negras.

Este não é o meu lugar de fala. Eu sei. Humildemente peço licença para falar sobre esse assunto, pois realmente mexe comigo.

Todo o trágico desfecho começou com boatos de que George havia passado uma nota falsa de US$ 20 em um supermercado. Mas quem é George? George Floyd é um homem afro-americano de 46 anos, preso em Minneapolis, Minnesota, nos Estados Unidos.

Vídeos e imagens retratando a agonia dos últimos minutos de vida de George viralizaram mundo afora. Eu não consegui inserir na coluna, pois sinceramente, meu coração está esmagado aqui dentro do peito. Nessas imagens e vídeos, aparecem o policial Derek Chauvin, ajoelhado sob o pescoço de Floyd, algemado e de bruços no chão.

Na noite de 25 de maio, um funcionário da Cup Foods (supermercado de Minneapolis), reportou uma nota falsa à polícia, seguindo o que é de praxe no estabelecimento. O funcionário acreditava que o dinheiro falso havia sido entregue por George, em pagamento a um maço de cigarros.

Os eventos que levaram à morte de George Floyd ocorreram em um intervalo de 30 minutos (Foto: Twitter/Ruth Richardson via BBC)

Uma vida por um maço de cigarros

Floyd vivia em Minneapolis e trabalhava como segurança. Como muitos ao redor do mundo, perdeu recentemente o seu emprego, em decorrência da pandemia de Covid-19. Era cliente assíduo do supermercado e reconhecido por ser gentil e nunca causar problemas, de acordo com Mike Abumayyaleh, em entrevista à NBC.

Logo após a ligação do funcionário à polícia, reportando a nota falsa recebida de pelo maço de cigarros, Floyd foi encontrado sentado com duas pessoas em um carro estacionado em uma esquina. Ao se aproximar do carro, um dos policiais sacou a sua arma e ordenou que George mostrasse as suas mãos. Ninguém sabe por que o policial decidiu sacar a arma, pois Floyd não ameaçava perigo. De acordo com o relatório, o policial colocou as mãos em Floyd e o puxou para longe do carro, com o homem reagindo ao ser algemado.

Ainda conforme relatório, houve confronto físico quando os policiais tentaram encaminhar Floyd à viatura. Por volta das 20h14, Floyd caiu no chão e falou aos policiais que não estava bem, que era claustrofóbico. Nesse momento foi quando Chauvin chegou ao local e tentou colocar Floyd na viatura. Essa tentativa aconteceu às 20h19. Quando puxou Floyd do banco do passageiro, ele caiu de rosto no chão, ainda algemado, conforme relatório.

Floyd suplica:

“Não consigo respirar”

Testemunhas filmam o momento angustiante, capturados por vários telefones celulares. Essas cenas grotescas foram amplamente compartilhadas em sites e redes sociais.

Segurado por profissionais, Floyd passa mal e Chauvin coloca o seu joelho esquerdo entre a cabeça e o pescoço de Floyd.

Durante 8 minutos e 46 segundos, Chauvin manteve o seu joelho no pescoço de Floyd, que suplicava “por favor, por favor, por favor, não consigo respirar”.

Após os primeiros 6 minutos, George Floyd já estava desacordado. Quando Floyd parou de falar, testemunhas pedem aos policiais que verifiquem o seu pulso. Não conseguem sentir o pulso de Floyd, mas mesmo assim, os policiais não fazem menção de se mexer e de soltá-lo.

Às 20h27, Chauvin tira o joelho do pescoço de Floyd e ele permanece imóvel. Ainda o levaram ao hospital, mas o declararam morto quase uma hora depois.

Flores deixadas em homenagem a George Floyd em Minneapolis (Foto: AFP via BBC e Época Negócios)

Manifestantes americanos pedem o fim da violência policial contra cidadãos negros.

Manifestantes ateiam fogo a delegacia em 3ª noite de protestos nos EUA. Pedem o fim da violência policial contra negros e a prisão do agente que matou George Floyd, 46 anos, na 2ª feira (25.maio)

E no Brasil?

Quantos negros morrem no nosso país, todos os dias? Quantos negros recebem bala primeiro, antes de serem questionados sobre algo? Quantos negros morrem apenas por terem a sua cor de pele odiada por racismo e preconceito? Quantos pais de família negros são mortos por serem “confundidos” com bandidos? George Floyd não será esquecido, mas eu me pergunto o que a gente faz mesmo aqui, no nosso país. Eu me pergunto porque a morte negra americana recebe mais notoriedade e repúdio do que as mortes negras que acontecem aqui em nosso país, na nossa cidade, no nosso bairro.

Quando foi mesmo que as vidas negras começaram a ser barganhadas? Qual a dívida histórica e social que temos com essas pessoas que sofreram e sofrem em nossas mãos há séculos? A escravidão e subserviência ainda existem, apenas mudaram de nomes. Em subempregos e sem acesso a educação, seguimos dizimando negros, todos os dias. Ao tratarmos com descaso as suas vidas e as suas lutas, ao esquecermos tão rapidamente sobre a Marielle Franco e de tantas outras mortes que nem sempre chegam a receber nomes.

Quem matou Marielle Franco?

Segundo notícia do Estadão de 05 de junho de 2019, 75% dos homicídios brasileiros, são negros. 75%.

De acordo com reportagem da Exame, de novembro de 2019:

“IBGE: População negra é principal vítima de homicídio no Brasil

Entre 2012 e 2017, foram registradas 255 mil mortes de negros por assassinato; em proporção, negros têm 2,7 mais chances de ser vítima do que brancos”

Rio de Janeiro/imagem de arquivo: protesto da população após morte pela polícia no RJ (Pilar Olivares/Reuters, imagem divulgada em reportagem da Exame de novembro de 2019)

Quem que começou a tabelar os preços de nossas vidas? Quem foi o primeiro que decidiu que a carne negra fosse a mais barata do mercado? O sentimento de revolta e de indignação não devem morrer junto com o esquecimento do assassinato de negros mundo afora. Enquanto sociedade, precisamos agir. Exigir resultados, investigações. Nosso maior trunfo – ainda – é o voto. E eu espero, de verdade, que saibamos escolher melhor quem nos representa, pois sobreviver e exigir respeito às vidas humanas também é um ato político.

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