Sessão de Terapia – Análise de uma das melhores séries que já assisti

O primeiro capítulo de Sessão de Terapia foi ao ar em 01 de outubro de 2012. Essa análise de hoje é sobre as três primeiras temporadas, recentemente vistas após indicação do meu noivo.

Um breve resumo introdutório:

“Em um consultório de psicanálise, um terapeuta acompanha um paciente por dia da semana, conhecendo os dilemas, as dores e as alegrias de cada um. Às sextas-feiras, os papéis se invertem e ele passa a compartilhar suas questões, agora como paciente”.

Zé Carlos Machado interpreta Theo Ceccato, o psicanalista e protagonista. Selma Egrei é Dora Aguiar: a psicóloga que faz a revisão de Theo e divide o protagonismo com ele.

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 A esquerda, Theo. A direita, Dora – divulgação

A série mostra uma sessão de terapia, com um paciente a cada capítulo. Ao longo de cada temporada, vamos conhecendo os personagens, suas vidas, seus dramas, suas alegrias e seus medos. Conforme os capítulos passam, conseguimos sentir empatia por eles e nos emocionamos ao tentarmos “colocar os seus calçados”, sentindo bem onde que dói mais.

É interessante como gostamos de assistir aos outros em análise, não é? Confortavelmente sentados em nossos sofás, assistimos a essa série e é possível nos teletransportarmos para dentro do consultório do Theo. Eu senti diversas vezes o ímpeto de querer entrar televisão adentro para abraçar algum dos personagens e dizer que “vai ficar tudo bem”. Mas aí, meio que instantaneamente eu me recordo que não é possível, da mesma forma que não é possível conseguir ajudar a todo mundo, o tempo todo.

E como é difícil perceber que podemos ajudar a alguém e não poder fazer nada, pois a pessoa ou não aceita ajuda, ou não quer ser salva ou… sim, temos que perceber que não somos protagonistas de histórias que não sejam as nossas.

Theo é um profissional extremamente dedicado e com grande empatia. Frequentemente ele se encontra em dilemas profundos sobre até que ponto deve se envolver com seus pacientes. Hoje eu percebo, de verdade, que a Martina que queria medicina realmente não daria certo. Aquela Martina queria estudar para ser médica oncologista: eu morreria um pouco a cada novo paciente que eu tratasse sem resultados, que eu não conseguisse salvar. Aliás, isso é algo que me faz pensar muito: eu preciso mesmo querer salvar a todos? Eu sinto como se devesse. E sim, eu preciso retomar a minha terapia. Acredito, na verdade, que todos nós devêssemos fazer terapia. E sabem o motivo dessa opinião? Todos nós temos lacunas em branco que nos sufocam, mas que por serem em branco, fazem com que a gente se engane, pensando que são inofensivas.

Tais lacunas em branco são as vezes nas quais queríamos ter dito algo e não falamos; as decepções que nós temos e que não superamos; as expectativas que colocamos nos outros; as promessas que fazemos a nós mesmos e não cumprimos; os relacionamentos que deixamos escapar por entre os dedos como areias de uma ampulheta.

Essas lacunas são oriundas de todas as vezes nas quais a vida nos mostrou que a gente não tem controle sobre tudo e, mesmo assim, optamos por nos culpar.

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A imagem apresenta os personagens da primeira temporada e o formato dos capítulos que mostram os dias de suas sessões.

Achei pertinente trazer esse assunto na coluna de hoje, pois ando percebendo alguns comportamentos estranhos nesse período de isolamento social. Comportamentos que talvez já existissem antes do isolamento físico por já existirem no isolamento mental: um dos mais fortes, ao meu ver. Um deles, o fato de eu ser tão cobrada por amigos através de mensagens como “nossa, Tina! Tá mesmo trabalhando tanto assim que não pode mais me responder”?

E sim, estou. Estou trabalhando muito, demais, pois eu preciso me manter e me organizar. Ser dona do próprio estúdio e do próprio nariz implica em ser também responsável não apenas pela minha empresa, mas por todas as empresas daqueles que confiam em meu trabalho e que, assim como eu, estão apreensivos com o cenário que se instaurou no mundo com a pandemia. Sendo assim, não cabe mais responder prontamente a mensagens com fofocas, por exemplo. Não cabe. Eu me coloco na posição ativa de criadora de conteúdo voltado à moda, à arte, à cultura. E para que possa render nas muitas frentes de serviços que ofereço como narradora visual que desenha e escreve, eu preciso sim, de foco.

Pela primeira vez em 36 anos eu me coloquei um pouco mais em primeiro lugar e isso assustou a alguns amigos tão acostumados a me ter integralmente envolvida em seus questionamentos diários.

Conversando com outros amigos, senti que também perceberam atitudes semelhantes em seus círculos familiares e de amizades.

A verdade nua e crua, é que apenas o que é sincero, real e verdadeiro, irá permanecer. Nosso contexto social, comportamental e cultural está passando por mais e mais mudanças. E eu estou me perguntando qual o tipo de amigo, de cliente, de parceiro de negócios que eu realmente quero ao meu lado.

Não sou da área da saúde, não sou psicóloga e nem psiquiatra. Então essa análise é puramente a expressão de alguns de meus pontos de vista, os quais quase sempre pendem à análise do contexto do mercado criativo – no qual de fato eu atuo.

Hoje em dia, com o acesso a tudo tão facilitado, todo mundo é um pouco de cada coisa. Não é? Não vejo mal nisso, desde que esse pouco de tudo não suba à cabeça de modo a fazer com que a gente pense ser os donos da verdade.

A verdade. O que ela é, mesmo? É aquilo que realmente acontece ou a nossa interpretação passional e parcial sobre o que vivemos e achamos que acontece?

Gostamos de romancear a dor, de enaltecer o sofrimento. Quando nos colocamos na posição de mártir, nos aproximamos dos incompreendidos e injustiçados. Tentamos ser heróis de histórias que não são as nossas, tomamos dores que não nos cabem, sufocamos as lacunas em branco que precisam de nossa atenção, mas que não enxergamos, e tudo isso para depois nos queixarmos da posição a qual muitas vezes nós mesmos nos colocamos.

Que loucura. Né?

Olhamos no outro tudo aquilo que nos incomoda em nós mesmos. Mas apontar no outro é sempre mais fácil, mais confortável. Olhar para dentro de si, é um caminho sem volta e sim, machuca. Mas quando atravessamos esse espelho que nos separa do julgamento, percebemos que somos reais como todo mundo. E por reais, eu digo seres que erram muito, sempre, a vida toda. E isso, caros amigos, é viver.

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Personagens da primeira temporada – divulgação

Segunda, Terça, Quarta e Quinta, Theo atende aos seus pacientes. Na sexta, Theo é o paciente, em sua sessão com Dora.

Na primeira temporada, na segunda-feira temos Julia, uma médica anestesista em tratamento a um ano. Deseja lidar com seus medos de relacionamento.

Esse medo é tão presente nas nossas vidas, não é? Medo da rejeição, medo do abandono.

Na terça-feira temos Breno, um atirador de elite. Tentando agradar ao pai o tempo todo, sufoca seus sentimentos e se culpa por ter matado uma criança em uma operação tática.

Quem de nós nunca sufocou um sentimento para agradar a alguém?

Na quarta-feira temos Nina, uma ginasta que não se dá bem com os pais e que culpa a mãe pelo afastamento do pai. Está em busca de aceitação e de reencontro com ela mesma.

Quem nunca culpou alguém para se redimir do seu próprio sentimento de culpa?

Na quinta-feira temos Ana e João. Um casal em crise que não se ama mais, mas que não consegue perceber isso. Estão em busca de terapia de casal.

Quem de nós nunca tentou remendar um vaso que quebrou? E quem de nós, após a tentativa de colagem das peças, não percebeu que ele jamais voltaria a ser o que já foi antes de quebrar?

Na sexta-feira temos o Theo como paciente de Dora. O relacionamento deles é profissional e amigável, mas sentimos que há muito ressentimento envolvido. É legal perceber como essa situação se desenrola no decorrer da série. Theo usa a sua terapia sempre como um último recurso: a Dora é quem “apaga os incêndios” emocionais de Theo, impulsivo, sempre que ele precisa que alguém que ele respeite, o ouça.

Quem de nós não tem alguém que faz esse papel de bombeiro emocional?

Eu confesso que eu cansei de ser da brigada de incêndio emocional. Esse trabalho que começou como voluntário, passou a exigir uma carga horária que estava me asfixiando com a fumaça alheia. E simplesmente me afastei sim, de muitas situações, pessoas e locais que não me faziam mais bem algum.

Se algum de vocês se sente assim, aproveite o momento de isolamento social para reparar em quem de verdade te apoia e se importa. Pode ser bem revelador e talvez te motive a aprender a dizer não, como eu aprendi há alguns meses atrás.

O isolamento social trouxe uma enxurrada de cursos gratuitos. “Precisamos ocupar as nossas mentes!”, pensamos. Na tentativa de seguir ignorando aquelas conhecidas lacunas em branco.

“Se eu não fizer tudo que estiver sendo oferecido, estarei perdendo oportunidades!”

“Se eu fizer tudo o que estiver sendo oferecido, me sentirei sobrecarregado!”

E no meio desses dilemas todos, ficamos sem reação, sem saber o que fazer, sem saber como agir, não fazendo nada.

Não há uma receita de bolo que nos faça “aproveitar ao máximo o isolamento social”. E sabe por quê? Não precisamos aproveitar ao máximo o tempo no qual vivemos uma situação ruim. 2020 está sendo desafiador para todos nós. Não sei quanto a vocês, mas eu só quero que esse ano acabe. Por mais otimista que eu seja, por mais atuante que eu esteja realizando algumas ações criativas para marcar esse tempo de isolamento social com reflexões de fortalecimento profissional e psicológico para o futuro que está por vir, a verdade é que eu não estou sendo a mais produtiva do planeta. E nem tenho a pretensão de ser.

Confira o perfil do meu estúdio no Instagram. Lá vocês podem acompanhar algumas das minhas ações criativas em tempos de isolamento social.

Tem como ser super produtiva quando pessoas morrem sem parar por conta do vírus? Enquanto amigos te ligam ou mandam mensagens dizendo que foram demitidos? Enquanto teus pais, que estão na faixa etária de risco, estão longe de ti? Enquanto não é possível abraçar a familiares e amigos? Enquanto não se sabe como as coisas serão daqui para a frente? Com pais e mães de amigos no hospital, em tratamento de Covid-19? Com esse país inserido no caos generalizado?

Meus amigos, não. Não há como ser super produtivo em um cenário desses.

Então não, não te cobra tanto. E se a tua decisão para manter a tua sanidade mental nesse período seja a de não querer muito papo, te respeita e re resguarda. Expresse o não entalado na garganta, antes que ele te sufoque.

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Elenco da Segunda Temporada de Sessão de terapia

Na segunda temporada temos a Carol, uma estudante de arquitetura que sente que não pode falhar e que está diagnosticada com câncer; temos a advogada Paula, que sofre pelo abandono materno pelo qual passou na infância e com o dilema entre ser ou não ser mãe; Otávio, o pai superprotetor que se culpa pela morte do irmão e que por isso, quer que a sua filha caçula esteja sempre por perto; Daniel, filho de Ana e João (casal da primeira temporada), que sofre com as brigas dos pais em processo de separação.

Quem de nós nunca sentiu que se falhasse, deixaria de ser amado? Quem de nós nunca teve medo de ser abandonado por alguém que ama? Quem de nós nunca sufocou outra pessoa na tentativa de mantê-la presa, perto da gente? Quem de nós nunca se viu no meio de um desentendimento no qual fosse necessário optar por um dos lados?

A segunda temporada de Sessão de Terapia traz um Theo ainda mais humano, lidando com a perda do pai, com os sentimentos em conflito que precisaram ser reconhecidos de frente, com a nova vida separado da esposa Clarice, em seu apartamento onde a sala de estar é também o seu consultório. Essa aproximação do Theo com seus pacientes mostra uma necessidade muito grande de reflexão. Ao final da segunda temporada Theo tira uns meses para ele: viaja, veleja, descansa, respira.

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Elenco da Terceira Temporada de Sessão de Terapia

Na terceira temporada, Theo retorna de sua viagem de descanso e reflexão. Ao retornar depara-se com o filho com problemas com drogas, o que faz com que ele precise se reaproximar do seu irmão Nestor e seus outros dois filhos.

Nessa temporada temos novos pacientes e novas histórias.

Felipe, um rapaz rico que é homossexual e tem medo de se assumir perante aos pais e amigos, o que magoa o seu namorado. Milena é a viúva de Breno (paciente da primeira temporada) que buscou refúgio em uma série de tarefas domésticas para evitar pensar no que a faz sofrer, desencadeando o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Diego é um adolescente alcoólatra ignorado por seu pai e Bianca é uma esposa que aparentemente sofre violência doméstica mas na verdade descobre-se que ela tem um profundo problema psicológico que a faz distorcer a realidade por medo de perder o marido.

Nas sextas-feiras, como é de costume, Theo volta para os cuidados de Dora após uma tentativa frustrada de participar de um grupo de supervisão com outros terapeutas – que mostrou-se mais um palco de vaidades do que realmente um encontro de profissionais.

E vamos combinar, cá entre nós: palco de vaidades há em todas as áreas do conhecimento, não é? Cansativo demais, eu sei.

Quem nunca escondeu algo por medo de falar a verdade? Quem nunca mentiu para si mesmo, para evitar a dor da realidade? Quem nunca tentou fazer mal a si mesmo, mesmo que involuntariamente, a fim de chamar a atenção de alguém?

A terceira temporada termina com desfechos para todos os casos dos pacientes e com um final muito bonito para Theo, que finalmente descobre que seu pai sempre o amou ao ler as cartas que o seu pai deixou para ele. Cartas que foram entregues por seu irmão Nestor. Theo se reaproxima de si e de seus filhos, se reaproxima de Dora ao pedir que continue sendo a sua terapeuta.

Dora diz a Theo uma frase que me marcou bastante:

“Aceitar a nossa fragilidade, pode nos surpreender”.

Quando percebemos que não precisamos prestar contas a ninguém além de nós mesmos; que não precisamos ser perfeitos o tempo todo; que não há como ser unanimidade, começamos a perceber que há muito de humano em ser frágil.

Sermos corpo, alma, mente, coração, nos possibilita materializar quem somos. Nos tornamos reais em nossas imperfeições.

Eu super recomendo essa série como uma possibilidade de reflexão sobre nossos atos e pensamentos, sobre como de juízes passamos a réus, e vice e versa. Sobre o quão humanos somos e sobre o quanto isso é lindo. Essa série é sobre analisar as imperfeições tentando entender que nem tudo pode ser entendido.

Em tempos de isolamento social, que possamos não nos isolar tanto, a ponto de olharmos para os outros com olhar de soberba e superioridade. Que possamos lembrar, sempre que possível, que a maioria de nós lida com as suas questões do modo como consegue. Não, este modo nem sempre é o melhor, mas é o que foi possível encontrar em determinada situação.

Se algo te machuca a ponto de te paralisar, busque ajuda profissional. E aos que te julgam sem pensar, apenas procure ignorar: estar sentado na arquibancada é sempre mais fácil do que estar confrontando os nossos demônios na arena.

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Theo em Sessão de Terapia – Divulgação

 

 

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