Covid19 – O isolamento que trouxe reflexões

O Coronavírus trouxe o medo às vidas repletas de comodidade. Ações corriqueiras de antes, hoje são revistas. O ir e vir do trabalho, o uso do transporte público, o churrasco de domingo com os amigos, o happy hour da sexta-feira, a piscina depois do dia de trabalho. Os hábitos precisaram mudar por alguns dias.

No começo, eu não percebi a real gravidade. Absorta aqui no meu dia-a-dia de paz e tranquilidade de trabalho home office, li que havia um problema sério de ordem de saúde pública em alguns países europeus, fiquei preocupada, mas nada que me tirou da zona de conforto. E não foi por mal. Eu simplesmente não me dei conta do real mal.

E sabe o motivo? De tão privilegiada que sou, o mal só aparece para mim quando já está batendo à porta. E é aí que mora o grande problema.

Com alguns de meus workshops de design de superfície já marcados para os próximos meses, começaram a vir as mensagens dos alunos: “Tina, não vamos mais viajar por conta do vírus”, “Tina, estamos com medo”! E eu pensei “nossa, mas será que não é exagero”? Respondi que “tudo bem, que eu faria versões online do workshop presencial e que em breve enviaria as aulas aos alunos”.

Então comecei a ler que em São Paulo as empresas já estavam liberando os seus funcionários para trabalhar de suas casas. Depois, li uma reportagem na qual dizia que o presidente sugeriu que as empresas não pagassem os seus funcionários por 4 meses, mas que era só uma “gripezinha”. Logo, meu noivo começou a trabalhar de casa, também. Fomos fazer compras e já vimos prateleiras inteiras vazias. As ruas da cidade com bem menos pessoas. E aí sim, caiu a ficha. Há algo de muito errado. MESMO.

Somos uma geração que não vivenciou muitos problemas até então. Nós, os pertencentes às classes do comodismo e do conforto. Nós, os privilegiados de pratos cheios, cama quente e teto protetor. Estar frente a frente com uma pandemia, é ser forçado a pensar. É ser forçado a refletir sobre qual é mesmo o nosso papel nesse planeta.

O exemplo que deveria vir de cima, aqui no nosso país, não vem. E isso traz uma série de ondas de ignorância no povo que se acha esclarecido, mas que não é. Entre achismos e reclamações, “os jovens precisam ir trabalhar” e falas desse tipo, escondem-se verdades nuas e cruas das quais ninguém quer falar. Uma delas, é a de que mortos não produzem. Mortos não aquecem a economia.

E na realidade? Sinceramente, que a economia vá pro inferno em dias como esses. Aliás, que o tanto de impostos que todos nós pagamos a vida toda sejam revertidos hoje em prol de quem precisa, pagando os salários dessa gente toda – o meu incluso.

O vírus chegou mostrando que nós, os humanos grandiosos e cheios de ideias, somos reféns de um inimigo invisível que foi capaz de parar o mundo. E nós, os sabichões da Terra, não gostamos de ser contrariados. Não gostamos que mexam onde nos dói mais: a carteira.

“Devemos parar o consumismo antes que ele nos consuma”

E claro, em tempos de medo, o oportunismo é outra figurinha que aparece. Álcool em gel não se acha mais, em nenhum lugar. Máscaras? Papel higiênico? Andam em falta por aí. Cursos que prometem mundos e fundos à economia e aos pequenos criadores de conteúdo? Aos montes. Ganhe dinheiro. Aprenda fácil. E o pior da humanidade veio à tona: o descaso.

Não serão tempos fáceis esses que estão por vir. Agora também não está fácil. Mas eu pergunto a vocês: quando esteve? Ou só começou a ser difícil agora? Para os que nada possuem, há anos que tudo está ruim. O detalhe, é que isso nunca nos importou. E isso é de esmagar o coração. Os problemas mudam de nome, mas permanecem.

Então me digam: o que nós podemos fazer para reverter isso tudo? Se não for possível reverter, há como amenizar? Pensando em ações assim, criei a #quarentenaestampada

Essa ação já dura 15 dias (esta quarta-feira será o 16º) e, a cada dia, envio algum desafio aos criativos que me seguem em meu perfil no Instagram. Esse foi o modo que eu encontrei para trazer um pouco de alívio e cor aos meus alunos e clientes, agora em tempos de reclusão. Não estou lucrando com isso. Ao contrário do que muitos me sugeriram, ao me enviar mensagens de “Nossa, Tina… que burrice! Lança teu curso online agora!”. Não, não optei por capitalizar um momento de dificuldade. Mas também não quero biscoito por isso, pois fiz o que considero certo e cada um sabe de si. Caso queiram acessar, clique aqui para me acompanhar.

Presente de Natal 22
Desperte. Acordar já não basta. Ilustração de Martina Viegas

Tem muitas pessoas que se inspiram em ações simples que fazemos, todos os dias. E é pensando nelas, também, que desistir não é uma opção.

Ser uma educadora criativa me faz ter responsabilidade social sobre o que eu digo e faço. E é assim que deve ser. As minhas narrativas criativas não servem apenas para pagar minhas contas, mas também cumprem o seu papel de fazer pensar.

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Compartilhando, chegamos mais longe. Imagem de Martina Viegas

Por isso que, quando eu vejo iniciativas de marketing e autopromoção fantasiadas de atos genuínos de partilha de saberes, eu fico muito incomodada. O tempo hoje não é o de lucrar em cima do desespero alheio, e sim, de oferecer carinho, aconchego e ajuda. Milhares de pessoas perderão seus empregos nos próximos dias. E como nós vamos agir?

Façamos a nossa parte.

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Estampa Filtre e Filtre-se, criação de Martina Viegas. Uma estampa manifesto em prol dos cuidados que devemos ter em tempos de quarentena, a fim de protegermos a quem está no grupo de risco.

A estampa Filtre e Filtre-se foi feita desenhando em aquarela em filtros de papel usados para coar o café. Esse duplo sentido foi proposital e escolhi esse material para que a gente pense um pouco na qualidade do que sai de nossas bocas e no que entra por nossos olhos e ouvidos.

Quando criei o logo da minha marca, do meu estúdio, pensei em um olho que olha e enxerga. Não basta olhar, é preciso enxergar e fazer a nossa parte. E é assim que eu gosto de ser: uma narradora visual que olha e que enxerga. Os tempos são difíceis, mas não adianta apenas ficar encolhido e amedrontado. É preciso agir. Mesmo que neste momento, seja cada um em sua casa.

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Estampa Olhares, de Martina Viegas

E mais do que nunca, o tempo é de extremo cuidado com a qualidade do conteúdo que vamos enviar para dentro da cachola. Os níveis de ansiedade andam altíssimos, é tanta live e curso gratuito que, às vezes, dá um nó na garganta e a gente pensa que se não fizer tudo o que aparecer pela frente, estará ficando para trás. E calma, não é bem assim. Se optar por não fazer nada e apenas descansar, está tudo bem.

Priorizar a saúde mental é sim, importante.

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Ilustração em aquarela, de Martina Viegas

E enquanto esses dias não passam, aproveite para reavaliar as tuas atitudes, leia mais sobre o que cientistas andam falando sobre as pesquisas embasadas deles sobre o Coronavírus, deixe a ignorância e o achismo de lado, priorize o bom senso. Na dúvida entre o falar e o calar, cale-se.

Vá olhar vídeo de gatinho fofo, vá procurar ajudar a algum vizinho idoso que não possa sair de casa, vá ligar para aquele amigo que há anos tu diz que te importa mas que nunca teve tempo para entrar em contato. Seria mesmo a falta de tempo que te impediu?

Olhe para as bênçãos ao teu redor e seja grato. Ao invés de dizer que é bobagem, que é exagero, olhe ao teu redor. Ligue a televisão e veja os montes de mortes que o vírus trouxe aos países onde os sabichões disseram que era exagero tomar medidas de precaução.

Que todos os governantes despertem. Que todos os cidadãos olhem menos para o dinheiro atrás de tudo e mais para as vidas que produzem as riquezas. Não é tempo de pensar em economia. Não é tempo de ser egoísta e rapelar as prateleiras dos supermercados, não deixando um saco de arroz e de feijão às famílias que somente isso podem comprar todas as semanas. Fé e egoísmo são duas coisas que não combinam. Crer em algo bom implica em fazer algo bom. Consegue? Ou é só de teoria que tu vive?

Se tu tens dois sacos de pão e sabe de alguém que não tem nada, reparta. Se passar ao lado de uma pessoa em situação de vulnerabilidade, ofereça ajuda. Não é tempo para julgar os jovens que não querem sacudir dentro de transportes públicos todos os dias indo e vindo do trabalho. Nem é tempo de achar que quem não está em zona de risco deveria seguir vida normal.

APRENDAM, DE UMA VEZ POR TODAS: o que vivemos é muito mais sobre não passar a doença adiante, do que sobre não pegá-la. Portanto, sim, jovens devem ficar em casa. Idosos devem ficar em casa! Fiquem todos em casa!

Os próximos 15 dias ditarão os rumos da pandemia. Para que a curva de propagação do Covid19 baixe, precisamos ficar em casa e fazer a nossa parte. Se não tiver o que fazer, repito: passeie pela internet, viaje por perfis de Instagram de tua escolha, vá apreciar os vídeos de gatinhos. Mas fique em casa.

Criações de Martina Viegas para a sua ação #quarentenaestampada

Não é tempo para bancar o esperto, de querer tirar vantagem dos outros, querer saber mais do que os estudiosos da área sabem. É TEMPO DE APRENDER A FALAR MENOS E A OUVIR E ACATAR MAIS. Sim, é tempo de ser impotente e não ter o controle de tudo nas mãos.

E é tempo de fazer o que há tempos não fazemos: optarmos por sermos bons.

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