Dia da Mulher: Parabéns para quem?

Dia 08 de março. Dia da mulher. Amanhã virá uma enxurrada de parabéns a todas nós mulheres. Bombons, rosas, joias, cartões. E-mails de felicitações, cartões das empresas nas quais trabalhamos, abraços para todos os lados.

Todos os anos eu escrevo alguma coisa sobre este tema e nem sempre publico. E evito de fazê-lo por entender que ecoar meus pensamentos por aí, muitas vezes, me faz cansar. Aos que acham que ser mulher é tarefa fácil, um desafio: experimentem parecer bonita/inteligente/interessante/capacitada o suficiente para ser levada a sério, na medida exata da expectativa dos homens que estiverem ao teu redor. Se for menos ou mais do que o esperado, sofrerá as consequências.

Para os que não sabem, o Dia Internacional da Mulher é uma data comemorativa mundialmente conhecida e que foi oficializada pela Organização das Nações Unidas na década de 70. A data é uma homenagem simbólica à luta das mulheres – inicialmente buscando melhores condições de trabalho e salários compatíveis. Hoje em dia a discussão foi ampliada: as mulheres lutam contra o preconceito, machismo, violência – verbal e física, e contra o feminicídio. E essa luta deveria ser tua também, caro amigo homem.

Coluna Martina - 08032020
Foto: Omar Lopez

Estou reassistindo MadMen – série que se passa em 1960 – e me perguntando em qual túnel do tempo eu me perdi, pois praticamente tudo permanece a mesma coisa. Inclusive, recomendo muito este seriado disponível no Netflix. Faz pensar tanto, sobre tantas coisas, que eu chego a ficar tonta.

A julgar por quem está no poder agora no nosso país e no mundo, nem teria como ser diferente, não é? Os exemplos do que não deve ser feito superam os positivos por aqui, nesse lugar chamado Terra. E se nós, mulheres, lutarmos, desafiando a estas vozes opressoras que gritam em nossos ouvidos até a exaustão, podemos acabar mortas.

Assista aqui a um resumo sobre uma das personagens femininas de maior destaque na série, Betty Draper (contém spoilers).

Betty é o retrato da mulher dos anos 60 aplaudida pela maior parte da sociedade da época e sabe o que mais? É o retrato da Bela, Recatada e do Lar que a sociedade brasileira deseja empurrar para as mulheres de 2020. O detalhe, caros amigos, é que o tempo não apenas nos deixa mais velhas, mas também, mais fortes. E sororidade – embora seja um caminho ainda longo a ser percorrido – já deixou de ser apenas um conceito. Aliás, queridos leitores, engana-se muito quem joga no colo masculino toda a responsabilidade pelo machismo, ok? Há muitas mulheres que julgam, maltratam e agem com preconceito contra outras mulheres. Infelizmente mais casos do que eu gostaria de contar.

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Betty Draper e Don Draper (Foto: Divulgação)

Complementando o pensamento desta coluna, vale muito a pena a leitura deste texto aqui.

Mas março está aí, cheio de bombons, rosas, mesmos clichês e velhos hábitos machistas. Sendo esperada a retribuição dos gestos ‘gentis’ como algo institucionalizado, normal e, se possível, com um sorriso de orelha a orelha (afinal, não queremos que pensem que somos mal amadas, não é?).

Ser mulher é ter jornada tripla, tentar um tempo para nós mesmas, empreender porque simplesmente desejamos conquistar o nosso espaço sem que algum sofá ou apenas algum baixo salário – geralmente menor do que o de um homem na mesma função – esteja envolvido. É ter medo de ir e vir após um certo horário da noite. É ter medo de entrar em um Uber e não saber se chegará viva ao destino. É ter a sua roupa julgada e tida por convite.

É ser filha, irmã, esposa, mãe, nora, profissional, dona de casa. É ser julgada pelo temperamento, pelas escolhas. É ser interrompida 10x em uma mesma reunião. É ser desacreditada o tempo todo. E chamada de louca quando após anos de submissão, decide aprender a dizer não.

É sofrer assédio por ser gorda/magra, feia/bonita. É ter a autoestima leiloada todas as vezes que algum homem diz “essa eu pegaria/comeria”, perguntando-se onde mesmo que há uma alface em seu cabelo para ser confundida com um hambúrguer.

Vídeo 500 anos de beleza feminina na arte:Vídeo que recebi por WhatsApp ‘retratando os 500 anos de beleza feminina na arte’, obviamente feito por um homem. Eu me pergunto cadê as obras que retratam mulheres maravilhosas além das europeias brancas.

É ser coisificada de modo que passamos a achar que só temos nossa capacidade validada quando esta passa pelo ‘ok’ masculino. E ter que sentir que temos que ser eternamente gratas a tudo que chega até nossas mãos através deste ok.

Ser mulher, caros amigos, é ver um relacionamento de anos ser finalizado porque estamos acima do peso. E é ter esse peso de término nas costas nos fragilizando a ponto de nós termos que investir em terapia não para saber lidar com os nossos problemas – e sim os dos outros, pois somos ‘dramáticas demais’.

Ser mulher é lutar por causas que nos abraçam, porque a representatividade importa sim.

A lista dos desafios de ser mulher são gigantescas. Mas sabe? Eu amo a mulher que construí ao longo destes 36 anos de tantas lutas, erros e acertos. Mas não irei glamourizar o sofrimento porque, de verdade, as coisas deveriam ser mais justas, sim. E  sim, eu poderia ter me construído e reconstruído mais rápido e com menos dor se pelo caminho eu tivesse encontrado mais apoio ao invés de tanto julgamento.

Mas o parabéns é nosso, sim. Agradeço. Só nós mulheres sabemos o quanto merecemos. Afinal, após termos pertencido primeiro ao pai, depois a alguns relacionamentos, julgamentos e sociedade, estamos finalmente aprendendo a pertencer a nós mesmas. Ser mulher é, acima de tudo, um ato de coragem.

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