All the Bright Places: filme da Netflix fala sobre luto e prevenção ao suicídio

Eu sou uma narradora visual. Adotei esse termo em setembro de 2019, após um insight maravilhoso que tive estudando o curso Deixe Sua Marca, das irmãs Alcântara – equipe Efeito Orna. A Débora Alcântara me deu um feedback tão incrível após eu ter participado de uma ação do curso – Imersão Orna – que simplesmente eu pensei: não pode ser por acaso que ela tenha me dito isso. Não pode. Ela me disse que eu escrevia bem. As mesmas coisas que a minha melhor amiga, que infelizmente não está mais aqui comigo, me dizia sempre. Quando eu ouvi os áudios da Débora, eu só chorava. De alegria, por ter sido elogiada por alguém que admiro de verdade; de realização, por sentir que estava no caminho certo na condução da minha carreira e do meu estúdio; de saudade, por não poder ouvir mais a gargalhada da minha amiga e uma das minhas maiores incentivadoras.

Então eu percebi que a minha sensibilidade para tudo, que o meu jeito chorão desde sempre, que o modo como tudo tem maior impacto para mim do que muitas vezes precisaria ter, que o modo como eu me importo e que a estranheza que meu jeito e comportamento instigam nos outros são pequenos cacos de quem eu sou. Tudo isso, bom ou mau, é a Martina. A que desenha e a que escreve. A que se emociona fácil e que tenta fazer alguma coisa boa para alguém sempre que pode.

Quando tu está quebrado, tu entende que algo não está como deveria estar, mas não sabe como mudar o que está errado. É como se tu tentasse comprar uma cola capaz de grudar qualquer superfície e de fazer os cacos voltarem a ser uma peça única, como já foi um dia, e não encontrar em loja nenhuma. Tu bate de porta em porta a procura da cola, mas ninguém te entende e mesmo os que querem ajudar, muitas vezes fazem mais mal do que bem: te oferecem um barbante, uma fita adesiva, mas não é o suficiente.  Alguns querem mesmo ajudar, só não sabem como. Outros querem fazer de conta, então te falam algo como “Se não dá para colar, descarta! Joga fora!” e sabe? Nem é proposital. Pelo menos eu quero seguir acreditando que não seja.

Mas tu sabe que não tá bem. Tu sente. Tua concentração não está como deveria. Tua produção não está como deveria. Nada se encaixa e às vezes parece que a gente se perde e vai para longe, muito longe, e não consegue mais voltar.

Por um ano a minha fuga foi a de passar as tardes dormindo. Eu dormia muito. Havia saído do meu trabalho na época, para estudar e finalizar o mestrado. Estudava de manhã e a tarde eu dormia. Os dias viravam semanas, que viravam meses. E assim passou quase 1 ano. Se me perguntarem o que eu fiz de novembro de 2013 até agosto de 2014, eu não lembro. O que eu sei é que pelo período eu estava terminando a pós em design de superfície, havia começado o mestrado e estava muito sozinha. Muito sozinha, mesmo. Tinha colegas de aula, tinha meus pais e irmã, mas me sentia sozinha. Tinha a Sandra, mas ela morava longe com os pais e absorta em suas próprias questões, nem sempre podia me ouvir. Eu pensava assim, não queria incomodar. Aliás, isso é algo que eu sempre penso: “vou resolver sozinha, não quero incomodar”. Engraçado, porque eu tento sempre fazer os outros se abrirem comigo, quando estão magoados ou tristes.

Martina Viegas - narradora visual ilustra.jpeg
Ilustração feita por mim e que bem retrata esses momentos em que estamos quebrados

Um dia eu perguntei pro Eric, meu noivo, “por que eu não tenho amigos como os amigos das séries, como em Friends:  loucos, cheios de manias, mas que quando o bicho pega, realmente se importam” e ele me respondeu algo que entrou dentro de mim.“Tina, tu não tem um amigo assim porque você é essa amiga para os outros”.

Eu sempre arranjo tempo, é verdade. Mesmo triste, eu dou um jeito e ouço quem precisa de mim. Mas seria bom, bom mesmo, se eu tivesse alguém para mim. E ai eu me dei conta de que eu posso arranjar mais tempo para mim. E que eu posso começar a não ser tão dura comigo. Além disso, me dei conta de que tenho sim, alguém assim, que sempre me ouve quando eu mais preciso. A Lidi.

Quem me via em 2014, não fazia ideia. Eu sorria, eu ia à aula, eu emagreci bastante na época (fruto de um dos meus cacos… eu só seria amada de novo estando magra, eu pensava). Por estar mais dentro da beleza que todos gostam, ‘eu estava ótima’. “Nossa, Tina! Tu está muitoooo bem! Que magra!”. Eu sorria, agradecia, mas sentia algo me cortando, lá dentro. O aspecto físico sempre me trouxe muita dor. Eu nunca me achei realmente bonita. Estou começando agora, aos poucos. E com a ajuda do Eric.

Todos somos quebrados, uns mais do que os outros, mas todos somos quebrados. Alguns de nós estão quebrados e em partes tão pequenas, tão minúsculas, que às vezes pensamos que não há mais o que juntar. Somos fragmentos de pensamentos, de sonhos, de ações, de momentos e de lembranças. Ao mesmo tempo que somos a poeira do que poderíamos ter sido, se tudo fosse diferente do que é, mas somos lindos, pois somos quem nós construímos a partir do que foi possível.

Eu acredito muito que as palavras possuem uma magia, um poder, algo que realmente não temos como explicar ao certo. E quando as palavras se mesclam em narrativas criativas que te envolvem em uma dança que te faz ver como tudo é lindo, sendo imperfeito do jeito que é, tu sente que conseguiu comprar aquela cola que te disseram um dia que não existia.

All the Bright Places chamou a minha atenção porque foi um filme criado em apoio aos que sofrem por luto e prevenção ao suicídio. Esse filme é estrelado pela linda Elle Fanning e por um ator simplesmente maravilhoso que eu não conhecia – Justice Smith.

All the Bright Places
Esses queridos aqui, dá uma olhada. Foto: Reprodução Instagram @jenniferniven

Tem spoilers, mas recomendo que assistam e tirem as suas próprias conclusões sobre o filme. E por favor, caso tu sinta que não está bem, não assista a este filme sozinho. É bem forte. Tem cenas pesadas. Procure ajuda médica, converse com amigos e família. E o mais importante, não tenha vergonha por precisar de ajuda. Eu precisei e graças a ela, hoje estou bem.

Mas em resumo, o filme é sobre duas pessoas muito quebradas que colam os cacos um do outro. Violet perdeu a irmã em um acidente de carro há alguns meses atrás e todos os amigos acham que ela já deveria ter superado. Ela perdeu a irmã e a melhor amiga, confidente, seu mundo.

Finch sofreu abusos do pai quando criança e hoje é um adolescente que luta para superar o vazio gigantesco que todo o trauma causou: não consegue se concentrar, tem rompantes de agressividade e tenta a todo custo querer lembrar de algo bom do pai, mas não consegue.

Um dia ele sai para correr e vê Violet prestes a se jogar de uma ponte – a mesma ponte na qual sua irmã sofreu o acidente. Ele conversou com ela, subiu em cima da ponte também e por algum motivo, Violet o ouviu. Passaram a ser amigos. Ele mostrou a ela inúmeros lugares especiais, ensinou que há muito com o que se maravilhar com a vida, nessa vida. Acabam sendo dupla em uma tarefa do colégio, que os aproxima.

ALL THE BRIGHT PLACES
All the Bright Places está disponível na plataforma de streaming Netflix

Passam a namorar, vivem momentos lindos e tocantes, mas nada disso foi o suficiente para Finch conseguir achar o seu caminho de volta, vindo a cometer suicídio. No final, Violet apresenta a tarefa que era em dupla com Finch, de modo tocante, agradecendo por tudo que ele a ensinou.

Um quebrado sempre reconhece o outro. Finch passava por um caos gigantesco dentro de si, mas quando estava focado em ajudar a Violet, ele conseguia achar um propósito maior para a sua existência. É nítido em uma cena, que quando Violet sorri e conversa com os amigos de Finch, ele está perdido em seus pensamentos, distante… pois ela está bem, então ele não tem mais o seu propósito ativo, voltando a se perder em si mesmo. A Violet quebrada é o elo de conexão de Finch com a realidade.

A todos que já perderam alguém muito importante nessa vida, seja pelo motivo que for, saibam que além de lamentar a ausência e a partida dessas pessoas, temos a opção de celebrarmos a sua presença pelo tempo que nos foi concedido.

E entendendo ou não, aceitando ou não, a vida continua. Nós continuamos. Remendados mesmo, pois assim é o que é.

Um dia a gente passa a olhar as marcas dos nossos cacos colados como algo lindo, como cicatrizes que nos lembram que lutamos e que vencemos. E que superfície linda esta que (sobre)vive para contar a sua história!

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