Sobre Ciclos

Para a minha primeira coluna de fevereiro, quis escrever sobre os ciclos pelos quais passamos. Bons ou ruins, são todos necessários. Crescer é para os fortes, mas é algo que é exigido para todos que caminham sobre o solo dessa Terra. E sofrendo ou não, não há como passar ileso  por essa aventura chamada vida.

Coluna Martina 10012020 - foto Sergio Souza
Foto: Sergio Souza

Ciclos. Costumamos achar normal nos colocarmos em posição de vítimas, transpondo aos demais que nos cercam generosas parcelas de culpa. Ficamos em uma espécie de pedestal que nos separa dos outros e nos coloca em posição de superioridade. Talvez seja uma atitude tão humana e corriqueira, que inconscientemente julgamos indigna de nossa real preocupação ou atenção: às vezes até sentimos que nossas decisões ocasionadas por ímpetos não estão lá muito organizadas na timeline de nossas vidas, mas as deixamos lá. Afinal, “eu não levo desaforo para casa!”, não é? Mas então eu pergunto a vocês: se não levamos o desaforo para casa, qual o real motivo de levarmos conosco a dor e a mágoa? Não deveriam estes também ser deixados de lado?

Somos tão orgulhosos de nossos caminhos e objetivos, que somos cegados pelo ego e nem percebemos que estamos indo à guerra sem enxergarmos nada e nem ninguém. Um namoro que termina após anos de convivência. Uma amizade que desaparece após tantas trocas e promessas. Algo que deixa de ser importante. Um local que não desejamos mais visitar. Uma mensagem esquecida propositalmente de responder. O compromisso que adiamos porque não temos interesse. As desculpas esfarrapadas que damos para não encontrar alguém que não queremos. Amigos que passam a apenas colegas e disso, apenas a conhecidos… mas que não tiramos de nossas redes sociais. Posts bonitos de locais lindos e com coloridos maravilhosos que na verdade, não retratam a tristeza que a gente vive. Nem o caos que nos assola.

É tudo muito tênue e frágil. Eu sou do tempo em que amigos importam. Sou do tempo em que ouvir alguém é realmente mostrar-se interessado no que esta pessoa tem a dizer. Sou do tempo em que ser verdadeiro é realmente dizer a verdade, não aquilo que o outro deseja ouvir. Sou do tempo da máxima que diz ‘os incomodados que se mudem, que se retirem’. Sou do tempo em que validar algo bom em alguém, é algo natural a ser feito quando há afeição. Sou do tempo em que reais conexões são mais fortes do que aparências, status social ou likes e followers no Instagram. Mas sou de um tempo já ultrapassado, do qual há poucos sobreviventes. “Eu pertenço a uma raça antiga, de pés descalços e de sonhos brancos”, já cantou Shakira há anos atrás.

É muito insano pensar que se não respondermos a uma mensagem de um amigo, ele já possa pensar o pior de nós em uma fração minúscula de tempo. E aí, anos de troca e de amizade são reduzidos a ‘ele não me respondeu’. E então o retiramos de grupos de Whatsapp, do Messenger, deixamos de seguir no Twitter ou no Instagram. Poft. Acabamos com tudo porque lutar para corrigir algum erro é mais difícil e exige mais do que apenas o ato covarde de desistir.

Coluna Martina 10012020 - Foto Daniel Olah
Foto: Daniel Olah

E é mais insano pensar que, em muitos casos, a amizade já morreu há tempos, mas esquecemos de velar com respeito os momentos que já passaram: ficam os vestígios de relacionamentos não propriamente finalizados com a importância que mereciam; fica o ato pobre e simplório de nos seguirmos mutuamente sem na verdade termos vontade ou interesse em saber sobre a vida do outro. E então pulamos freneticamente os stories de alguém até descobrir que há como configurar a rede social para nunca mais vê-los. Ufa.

E aí nos arrastamos em trabalhos que não nos realizam, torcendo para que a semana passe rápido; fazemos de conta que não sentimos falta das pessoas que antes foram tão especiais e importantes nas nossas vidas, deletando fotos do celular e ocultando postagens antigas do Facebook; postamos uma foto sorrindo para camuflar a dor da despedida que nunca realizamos. E esquecemos de fechar os ciclos que já finalizaram, mas que nos recusamos a aceitar.

Dê este presente genuíno ao teu coração: perdoe e deixe ir. Quem não deseja mais estar ao teu lado, não deve ser acorrentado a lembranças de tempos que já passaram. Deixe ir. Liberte essas pessoas, situações e momentos do fardo do ter que fingir que ainda se importam.

A vida é sobre o quanto tu consegue perdoar e esquecer. A vida é sobre ciclos que vem e vão, começam e precisam terminar. E sabem do que mais? A vida é sobre os sobreviventes que resistem até o fim para contar as suas histórias com orgulho por tê-las vivido, mesmo que sem ter o final feliz prometido. E quem sabe o que nos espera amanhã? Já estou ansiosa para conhecer os novos ciclos que estão a caminho.

Coluna Martina 10012020 - Foto Nicola Jovanovic
Foto: Nikola Jovanovic

Fechou o ciclo anterior, que já deu o que era para dar? Isso, agora chaveia. O que fazer com a chave? Arremessa assim, olha! Bem forte e para frente, lá no rio cujas águas são capazes de levar e lavar tudo que carregam. Pronto. Agora é tempo de finalmente virarmos esta página.

E não, não olhe para trás.

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