Assim como o de Pollyanna

Eu sou a filha mais velha de um dos primeiros veterinários da pequena cidade de Igrejinha, no Rio Grande do sul. E sou, também, filha de uma das professoras mais conceituadas da cidade, que inclusive já foi condecorada como professora emérita da cidade. Sou bisneta dos donos do primeiro curtume da cidade, neta de descendentes de alemães, portugueses e espanhóis.

Há um grande peso em ser filha de Maruska Kirsch Viegas. As pessoas sempre esperam muito de mim. Hoje eu já aprendi a dosar isso tudo, mas quando criança, confesso que não era fácil.

Desde pequena, a curiosidade me levou a estudar mais e mais sobre assuntos que me interessavam. Eu fazia experimentos científicos com sapos, minhocas, formigas. Colocava os girinos em um balde e controlava seu crescimento. Eu tinha planilhas de controle, aos 6 anos de idade. Sim, a natureza me fascina desde sempre.

Eu catalogava flores, cores. Eu fazia rudimentares testes cromáticos com pigmentos naturais que conseguia em minhas aventuras no sítio do meu pai, no orquidário e bosque de meus avós, no jardim da casa onde vivi minha infância. Perguntava ao meu avô os nomes das orquídeas, sentia a maciez dos patinhos recém nascidos na chácara e me indagava como o arco-íris aparecia no céu apenas após o combo de chuva e sol.

Eu sempre enxerguei magia nas coisas, em tudo que me cercava. E sempre entendi que existem uma infinidade de coisas que acontecem e que a gente não entende, mas precisam acontecer. Assim como a chuva cai, o dia nasce e morre, o arco-íris aparece.

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Markus Spiske

Enquanto minha irmã sempre gostou de bonecas, eu sempre gostei de livros. Poderia ficar horas e horas sentada embaixo da árvore de jabuticaba, lendo, anotando meus insights em meus diários, degustando as bolinhas pretas que cresciam no caule da árvore. Eu não tinha medo de me sujar. Eu brincava.

Em 1994 houve um reajuste dos preços de tudo. Quem tiver mais de 32 anos vai lembrar. E nessa loucura de economia, o colégio onde eu estudava passou a custar o dobro do salário mínimo. Meus pais me tiraram da escola e me colocaram em uma escola pública da cidade.

Tive acesso a uma realidade que eu não sabia que existia. Cheguei a chorar algumas vezes quando via um coleguinha triste e com fome. Abria a lancheira cor de rosa e repartia com quem quisesse um pouco do meu lanche – sanduíches, frutas, bolachas, suco ou chá. Abria cuidadosamente o guardanapo bordado com meu nome sobre o banco do pátio da escola e repartia. Havia vezes em que não lanchava e não me importava: eu teria o que comer em casa, mas meus amigos não. Então estava tudo bem.

Meus colegas me tratavam muito bem, me elogiando constantemente. Na época eu não tinha noção total de todos os privilégios que eu já possuía. Mas eu sentia que algo era diferente ali em relação à dinâmica da escola particular. Em 1994 foi o ano no qual virei a melhor amiga da biblioteca do colégio. Minha mãe apresentava sintomas estranhos, meus pais não me diziam nada sobre isso e a minha irmã era muito pequena para entender ao certo o que estava acontecendo. A Martina de 10 anos anotou os sintomas que a mãe apresentava e foi pesquisar nos livros do colégio. A Martina de 10 anos descobriu que a mãe estava com câncer e pela primeira vez teve medo. Conversando com uma professora, ela confirmou que sim, parecia câncer. Eu gelei.

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As quimioterapias eram muito fortes. Eu vi minha mãe perder as sobrancelhas e o seu cabelo ficar bem fininho. Eu vi minha mãe que já era magrinha, ficar ainda mais.

Após a cirurgia, fomos vê-la no hospital e minha irmã passou mal. Eu nunca caminhei tremendo tanto, rumo ao quarto onde minha mãe estava. Eu sentia que tinha que ser forte, porque era a mais velha. Mas a Martina de 10 anos ainda era criança, embora se cobrasse para não ser. Quando a minha mãe ficou boa, eu rezei agradecendo a Deus pela primeira vez. Já havia rezado antes, mas o mundo da Martina de antes era tão perfeito e sólido, que não parecia que iria desmoronar nunca. Então por isso que eu digo que foi a partir desse momento que passei a ver tudo diferente. Passei a enxergar a vida como ela realmente é: um presente lindo, cheio de desafios e de momentos bons e outros ruins.

Quem já esteve prestes a perder para sempre alguém que ama, sabe o alívio que é ouvir um ‘estou curada, minha filhinha’.

Em 1995 a situação financeira dos meus pais melhorou e eu pude estudar em um colégio na cidade vizinha. Tinha um ônibus que me buscava em frente a casa dos meus pais e me deixava ali na frente após a aula. Já no trajeto de casa até a escola, senti a diferença de tudo. Estudantes mais velhos que também usavam o transporte batiam na minha irmã, sacudiam o seu banco e ela tremia de medo. Eu mesmo com medo, os enfrentava. Era motivo de deboches. Eu não ligava, pois a minha missão era a de proteger a minha irmã mais nova.

E sozinha, lembrei de como a biblioteca da escola antiga era a minha amiga. E fui conhecer a do colégio novo.

Foto 03- Foto de Hush Naidoo
Foto de Hush Naidoo

As estantes eram em maior número. Os livros eram mais novos e em maior quantidade.

Passeei por entre as estantes, maravilhada. “Achei vocês, meus amigos!”

Essa escola tinha tanta coisa errada, que eu nem sei por onde começar. Havia um quadro de “melhores alunos”, colados no mural. Quando a novata de 11 anos recém chegada de uma escola pública entrou na sala repleta de crianças ricas e mimadas, já sentiu na espinha que não seria nada fácil. Quando a mesma novata ficou em segundo lugar no quadro de notas do colégio e passou a representar uma ameaça às crianças que despontavam nessa posição por anos, passou a entender que ali na nova escola ela não passava de nada para a maioria. Eu nunca precisei me matar de estudar, ou passar as tardes estudando. Eu tinha facilidade para aprender. Fazia a lição rapidamente e o restante do tempo eu investia em minhas leituras.

Enquanto minhas colegas de 11 anos já beijavam na boca, eu lia, eu corria, eu brincava. Eu explorava os jardins e bibliotecas.

Aos 12 anos menstruei pela primeira vez e foi um choque ver tanto sangue na calcinha. Eu tive medo e pensei que estava morrendo. Gritei, meu pai foi ver o que estava acontecendo e chamou a minha mãe, que me explicou tudo e me tranquilizou. Dias depois disso, um dos estudantes mais velhos que também utilizava o transporte para ir à escola abriu a minha mochila e pegou um dos absorventes: ele grudou no vidro do ônibus, rindo de mim, rindo de algo natural que acontece com toda a menina algum dia. Eu me senti mal, triste, suja. Demorei alguns dias para contar ao meu pai. Chorei quieta no banheiro da nova escola fria, por muitos dias. Meu pai foi falar com os pais do menino e ele veio me pedir desculpas, mas não era sincero. Poucas as atitudes que nasceram do trajeto Igrejinha – Taquara de 1995 a 2001 foram sinceras. E as atitudes que vivenciei na escola, menos ainda. Um show de vaidades, de deboches, de mentiras e de inseguranças fantasiadas de beleza. De todos aqueles anos, guardo apenas boas lembranças, pois com tudo o que passei eu pude aprender alguma coisa.

Riam de mim porque eu conversava com os alunos bolsistas da escola. Riam de mim porque eu dividia a minha merenda com quem sentia fome. Riam de mim por eu não ter levado dinheiro para comprar lanche na cantina da escola. Riam de mim quando eu espirrava e eu ia ao banheiro limpar meu nariz. Riam de mim quando eu abria o guardanapo bordado da merenda. Tudo era motivo de deboche. As meninas mais ricas sempre desfaziam as roupas, os penteados, os materiais escolares.

Quando eu defendia alguém, debochavam de mim. Recebi o apelido “lição de moral” de um menino que faleceu alguns anos depois, morto embriagado em um trágico acidente de carro. Eu nunca soube odiar ninguém. Disso eu realmente me orgulho. Eu fiquei realmente triste por ele e por sua família.

Foto 04 - Foto de Georgia de Lotz
Foto de Georgia de Lotz

Um certo dia, encontrei um livro que virou um de meus favoritos: Pollyanna. Acho que o li e reli umas 40 vezes. Este livro* conta a história de uma menina órfã que vai morar com sua tia rica e triste. A menina contagia a todos com o Jogo do Contente, o qual aprendeu com seu pai. O jogo consiste em ver sempre o lado bom das coisas, agradecer pelas lições e coisas boas, retirar partes boas de situações ruins ou desagradáveis. Eu me dei conta de que eu já era adepta desse jogo, achei divertido. O Jogo do Contente foi uma criação do pai de Pollyanna, após a sua família receber um par de muletas de uma senhora, que explicou: “enquanto vocês estiverem olhando para as muletas sem precisar usá-las, lembrarão que são saudáveis e que podem andar”. A atitude positiva de Pollyanna me deixou feliz, pois eu percebi que não era tão estranha quanto meus colegas diziam que eu era.

Os sonhadores, meus amigos, não estão sozinhos. Estão apenas espalhados.

Foto 05 - Capa_do_livro_Pollyanna
Capa do livro Pollyanna

Eu percebia quando um colega estava triste e eu ia perguntar o que havia acontecido.  Tentava ajudar, de algum modo. Seguido eu era chamada até a sala da coordenação da escola e consultada perante algum incidente que eles precisavam entender melhor. Virei a conselheira da classe.

Eu não sabia, mas o que eu já tinha em mãos era um bom conjunto de soft skills. Para saber mais sobre isso, leia este excelente texto da Lu Linden Orientadora de Carreira clicando aqui.

Os anos passaram, eu achei que devia fazer medicina – e salvar vidas como a da minha mãe – e após anos morando em Porto Alegre e estudando para isso, minha mãe me incentivou a prestar vestibular para Design. Nunca houve uma decisão mais acertada na minha vida!

*O livro Pollyanna é um livro de Eleanor H. Porter e possui mais de 100 anos. Foi publicado pela primeira vez em 1913 e recebeu a continuação chamada Pollyanna Moça, anos mais tarde. Na continuação, a história conta a adolescência da Pollyanna.

Fui aprimorando minhas hard skills, fazendo muitos cursos paralelos a faculdade a fim de aprender a desenhar melhor, conhecer técnicas e ferramentas. Hoje eu possuo o meu estúdio de ilustração e estamparia, me denomino narradora visual e não poderia ser mais feliz do que sou ao narrar de modo ilustrado tantos projetos lindos e cheios de significado: projetos nos quais posso inserir minhas aptidões de escrita criativa, também.

Recentemente eu fiz um curso, chamado Deixe Sua Marca. Impressionante como todos os conceitos que aprendi ali fizeram muito sentido para mim. “Aprimore seus pontos fortes, não dê tanta importância aos pontos fracos”. “Compartilhar é maior do que competir!”. “Se tu não contar a tua história, ela será contada por outra pessoa”. Vou indexando os novos conhecimentos aos antigos e nessa caminhada, passei a usar mais o LinkedIn para escrever meus artigos. E foi a partir desse movimento que uma empresa do exterior me entrevistou para um freela. Sabem o que ouvi?

“Martina, tens um portfólio criativo muito bom. Além disso, gostamos muito de perceber que tuas soft skills são tão boas quanto as tuas hard skills”.

A Martina que era debochada na infância por ser emotiva, possuir empatia e se importar com os outros, hoje é a adulta que recebe ofertas de trabalho incríveis por ser justamente quem é.

Logo após esse acontecimento, recebi uma nova proposta muito boa, para ser Gerente de Comunicações de uma empresa em Fortaleza. Quando perguntei à responsável pela vaga sobre o motivo de terem pensado em uma graduada em design para o cargo, pois não sou relações públicas, ouvi a seguinte resposta: “queremos alguém que saiba comunicar com verdade e que se importe em ouvir as pessoas. Queremos as tuas soft skills no nosso time”.

Soft Skills. Hard Skills. Termos novos para atitudes que eu já conhecia.

Acabei não aceitando as ofertas pois estou hoje comprometida com meu estúdio criativo. Mas sabe? Gostei de saber que o mundo hoje está começando a olhar como forças, aquilo que julgava fraquezas. Ser gentil, educado e emotivo, nem sempre foi bem visto.

É engraçado isso, não é? As pessoas vão nos amar e nos detestar pelos mesmos motivos. O motivo do deboche de ontem é considerado artigo raro no mercado de hoje. E o que eu fiz? Nada além de ser eu mesma. Então, aconteça o que acontecer, não esqueçam de quem vocês realmente são.

Assim como Pollyanna, eu acredito que a vida seja sim, um baita de um presente. Ter visto a minha mãe doente foi terrível, mas fez com que eu desse mais valor à vida e fosse mais grata a tudo que recebo do Universo e de Deus todos os dias. Não ter cursado medicina me fez enveredar pelo caminho criativo do design e hoje sou muito feliz desenhando e escrevendo as minhas narrativas que viram produtos estampados, livros e ilustrações. Ter conhecido ainda pequena a mesquinhez humana no colégio particular onde estudei, me fez reconhecer quem de fato se importa comigo. E mais do que isso: não deixou de fazer com que eu seguisse me importando com as mesmas pessoas que já me fizeram mal, pois não sei odiar. Tudo o que passei me ajudou a fortalecer meu espírito e a me blindar. Ser gentil é sim, algo que cultivo. Mas ser gentil também deve ser praticado comigo: se me machuca, apenas me afasto. E reconhecer o tempo correto da aproximação e do afastamento, também é uma bênção.

Eu acredito que voar em bando é sempre muito melhor do que voar solo. Eu entendo que as pessoas estejam perdidas e que a distribuição de bússolas demorou para acontecer. Mas é reconfortante saber que hoje existem algumas pessoas que me entendem. Sobre a narrativa ilustrada da minha vida, eu preferi desenhar sorrisos nos rostos das pessoas; julgar menos e amar mais; fazer o Jogo do Contente e entender que todos nós somos engrenagens de uma mesma máquina. E isso me fez entender ainda muito nova, que meu sucesso nada tem a ver com o fracasso dos outros, que há espaço para todos. Eu agradeço a tudo que passo, pois reconheço que tudo o que acontece é bom, mesmo quando parece não ser. Eu me conecto com atitudes reais e sinto a reciprocidade.

E meus amigos, de todo o coração, se eu posso dar um conselho…

Invistam sua energia em amar as pessoas, em buscar entendê-las e aceitá-las. Entender e aceitar alguém não implica em concordar cegamente com tudo: trata-se de respeitar o outro e as suas ações. Perdoem mais. Um coração leve e dedicado ao amor é sempre mais lúcido para reconhecer as bênçãos que o cercam. Assim como o de Pollyanna.

2 comentários

  1. […] Eu, capricorniana que não entende nada de astrologia ou de signos – sempre me cobrei muito. Fui criada em uma sociedade que não tolera fracassos e nem fraquezas. Interessante é ver que apenas agora, mais perto dos 40 que dos 30, o que era tido por fraqueza virou motivo de elogio e de admiração. Interessante, isso. Escrevi mais sobre o assunto, sobre soft skills e reais pontos fortes nesse texto que você pode ler aqui. […]

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