Aprecie a Vista…

Olá, queridos leitores! Tudo bem? Espero que sim. Estou uns dias aqui por Igrejinha, minha cidade do coração. Vim visitar meus pais e irmã, atender a alguns clientes e organizar alguns projetos. Incrível como em meio a trabalho, sempre arranjo tempo cá e acolá para rever amigos, desenhar um pouco mais e brincar com a cachorrinha Caramelo (nova integrante da família Viegas). Faz parte da vida e a gente precisa é disso: viver. Entre labutas diárias e socos no estômago que a gente leva, é preciso olhar ao redor e saber agradecer. Sempre há alguma coisa boa para agradecer.

Hoje eu quis escrever sobre conquistas, escolhas, batalhas, vitórias e derrotas.

Nessa era de ‘vai lá e faz!’, ‘bora lá!’, ‘não quero saber de mimimi’, ‘conquiste por mérito’, eu confesso que meu otimismo abraça forte a realidade, que sussurra ao seu ouvido: “tente, mas não te cobre muito caso não conseguir logo!”.

Esse sussurro é mais gentil, não é? Ele incentiva, mas não aprisiona. Trabalhando há quase 13 anos como ilustradora e designer de superfície, tive o prazer e desprazer de atender a todos os tipos de clientes e de pessoas. E de tudo isso, de todos esses atendimentos, levei lições valiosas comigo.

Como ministro workshops criativos, tenho muito contato com colegas de profissão, amigos e entusiastas, e é claro, alunos ansiosos e tristes com os seus primeiros resultados de desenho.

Como estou alguns dias aqui na casa dos meus pais, revirei algumas pastas e selecionei alguns desenhos para ilustrar as passagens desse texto. O que eu sempre digo a todo mundo que está se cobrando demais, que não entende que a prática é o que leva ao aprimoramento das técnicas?

“Aprecie a vista. Treine, dedique-se, mas ao invés de invejar as flores do canteiro do vizinho, cultive as sementes corretas para o teu tipo de solo”

foto 01 - o começo
:Desenhos antigos de 2008 e 2011. Ainda lá no começo.

 

Ninguém começa sendo excelente. Talvez os gênios, estes sim. Mas não sei se eu gostaria de ser tão inteligente em um mundo tão complicado. Eu possivelmente já teria pirado. Melhor ser assim mediana mas real, simples e com muito ainda a aprender. Assim vamos dando nossos passos e aos poucos, chegamos ao objetivo. Mas sem pressa. Sem cobrança. Pelo menos não muita, ok?

Os meus primeiros desenhos não saíram perfeitos. Eles hoje ainda não são. O detalhe que faz toda a diferença, é que hoje eu já não ligo para isso de ‘desenhar perfeito’. O que é desenhar de modo perfeito? É desenhar ao estilo realista? Nunca soube muito definir isso quando me falam: “eu queria ser como a fulana, que desenha perfeito!”. Eu abro é um grande sorriso quando alguém entra em contato comigo querendo um desenho ‘assim, sabe? Bem Martina? Isso… aquarelado e com nanquim’. Meus desenhos já viraram tantos calçados, bolsas, roupas e objetos de decoração, que hoje eu não consigo nem contabilizar.

E lá no começo da carreira, nem tudo eu guardava. Deveria ter guardado, hoje penso. Mas já foi, né? Então eu olho para os primeiros desenhos que guardei e penso com carinho como eu já evolui, o que tudo eu já vivi.

Uma dica a todos os artistas, designers e ilustradores: guardem seus desenhos!

 

foto 02 - caminhando
Vamos caminhando e levando a vida. Desenho de 2010.

Do ponto de vista criativo, infelizmente a nossa linda cidade não consegue valorizar as pratas da casa. Para as grandes empresas da região, são contratados designers de cidades vizinhas. Entre status e competência, eu tenho lá minhas dúvidas sobre o que é um e o que é outro. Mas como não cabe a mim apontar e opinar, eu apenas observo e hoje agradeço a todas as grandes portas que foram abertas – e também, as muitas que me foram fechadas. Mas não se trata de um texto triste, melancólico e, Deus me livre, enfadonho!

O que eu quero afirmar a vocês, é que ao contrário do que todos pregam ultimamente, eu asseguro que sim, sempre será difícil. O esforço supera o talento. As indicações e oportunidades garimpadas ou construídas, também.

É importante apreciar a vista. A cada negativa, procurem não se sentir tão mal, tão tristes, tão sem esperança. É apenas uma vaga de emprego, gente. A tua vida não deveria depender dela. Tua vida vale mais, muito mais. E se as filas de desempregados já estão gigantes na pequena Igrejinha, não preciso nem dizer como está a situação em São Paulo, não é?

foto 03 - tentando
Tentando e tentando, sempre! Desenho de 2010.

Eu cheguei a pensar que fosse preciso uma mágica para fazer as coisas acontecer. Na verdade, sim, era preciso: mas a mágica deveria partir de dentro de mim. Ao invés de ficar triste pelas flores semeadas não vingarem aqui na minha cidade, eu optei por procurar novos solos. Já morei em algumas cidades do nosso Rio Grande do Sul e de cada fase vivida, hoje tiro a melhor parte. Aos 18 quando eu fui para Porto Alegre, custeada e apoiada por meus pais, lá vivi até meus 22 anos fazendo cursinhos para Medicina. Eu achava de verdade que eu só seria uma boa profissional se a minha ocupação fosse uma clássica. Em parte, devo essa alienação ao colégio onde estudei boa parte da minha vida: havia um quadro dos melhores e eu às vezes até aparecia lá como primeiro ou segundo lugar. Eu ouvia muito: “como tu és inteligente! Deverá fazer odonto, medicina ou direito!” e isso foi crescendo em mim. De pequena e adolescente, infelizmente eu não soube apreciar a vista. Eu olhava as vistas dos outros e queria tê-las para mim, mas não entendia que a cada olhar enxerga diferente.

foto 04 - semeando
Semeando oportunidades. Desenho de 2012.

Em 2005 a minha mãe conversou comigo e me disse que havia inúmeras formas de fazer o bem aos outros. Ela me disse, também, que a arte também salva vidas.

E ai eu prestei vestibular para Design. Em 2011 conclui o curso, em 2012 já comecei a fazer minha pós em design de superfície e em 2014 eu já estava a mil no meu mestrado. Nesse meio tempo fui professora, pesquisadora de materiais, ilustradora, designer de superfície, designer. Mas sabe o que eu nunca deixei de ser? Uma criatura persistente.

foto 05 - qual caminho
Caminhos. Retas e desvios. Desenho de 2019, detalhe de estampa.

 

Mas eu confesso que entendo muito bem que nem todos possuam essa mesma motivação que eu. Não é fácil só levar bordoadas. E vamos combinar que eu, do alto da pirâmide de meus privilégios, nunca soube de fato o que é ter arrancado de mim algo que eu quis muito.

Quando hoje eu converso com jovens cheios de vida e talento e sinto neles uma dose de tristeza e de amargor, fico triste junto. Não há espaço para o crescimento de talentos, pois não há mais tempo para esperar que eles cresçam. Isso não é doloroso de ouvir? Isso de exigir experiência e de nunca dar oportunidades? Ou até oferecer aqui e ali, mas nunca oferecer um salário à altura do conhecimento do jovem, da sua garra, da sua vontade?

Eu precisei sair do Rio Grande do Sul para ter a minha carreira deslanchando e prosperando, mas estou ciente de que não foi isso o fator que desencadeou todo o processo. Antes de mudar de cidade, mudei a forma de enxergar as coisas. Precisei dar um abraço de até logo em meus pais, irmã e amigos, e em 2016 fui-me para São Paulo, capital.

Mês que vem fará 3 anos que moro lá e digo a vocês: meu desejo é o de voltar a Igrejinha, assim que possível for. Pois quando vi outras possibilidades e encontrei outras pessoas que pensam como eu, percebi que não estou sozinha. Nós somos muitos, nós, os idealistas e sonhadores: estamos apenas espalhados.

foto 06 - todos possuem
Olhando as fatias de queijo, eu pensava: “cadê a minha?”. Desenho de 2016.

Mas não dá para apenas viver de sonhos, não é? Sonhos não pagam as contas. Sobreviver é preciso, mas viver, para mim, é necessário.

Então eu fui aguçando o olhar e percebendo que as melhores oportunidades não são aquelas que caem no nosso colo. Geralmente o que vem fácil, vai fácil. Já perceberam?

Fui fazer muitos novos cursos, fui conhecer muitas outras cidades e pessoas, fui mudar meu visual uma, duas, mil vezes. Fui ali, descobrir quem eu gostaria de ser e me encontrei.

foto 07 - sentindo novos aromas
Novos ares e aromas. Desenhos de 2019.

E foi preciso sim, mudar para São Paulo, viver tudo isso que eu vivi e vivo, para me reconhecer forte, capaz, feliz. Para ser a designer que eu sempre quis ser, inspirar e ser inspirada por tantas pessoas. Uma mente arejada e leve, rende mais. Mas fique atento: ser leve não é sinônimo de trabalhar pouco. Pelo contrário, a selva de pedras exige muito mais. Mas quando caminhamos um pouco de cada vez e reconhecemos que tudo faz parte de um panorama maior, deixamos de nos enxergar como o centro do mundo. E isso, isso faz total diferença.

foto 08 - plantando novas sementes
Fui plantando novas sementes e colhendo ótimos frutos. Desenho de 2019.

Eu vejo que os criativos possuem o péssimo hábito de sempre tentar se comparar aos demais. Não é possível uma coisa dessas. Cada um de nós é dotado de infinitas qualidades e defeitos. Os caminhos que para mim são traçados de um modo, para ti serão traçados de outro, totalmente diferente. Quem os determina somos nós, nossas escolhas. Às vezes, batalhar muito para me encaixar aqui e ali, só me machucou. Quando temos que nos esforçar muito para caber em um espaço, está na hora de procurarmos um local maior para fixarmos residência.

Aprendi a apreciar a vista dessa minha caminhada extensa e cheia de surpresas. E aos poucos aprendi a desenhar até um mapa: colina da fortuna, desfiladeiro da ansiedade, planalto da alegria. Não há caminhada mais bonita e nem mais feia. O que existe é a tua caminhada, feia e bonita, por vezes fácil e outras bastante difícil, mas tua. Quando abrimos os braços para sentirmos o abraço do acaso, podemos ser muito surpreendidos. Nem tudo é matemática exata. Nesse caminho da nossa vida, a maturidade nos ensina que lar é onde o propósito está. E que não, ninguém tropeça em propósito e passa a chamá-lo de seu, não. Nossos propósitos são construídos, assim como a nossa realidade que até pode ser muito diferente da expectativa, mas é nossa e é de verdade.

foto 09 - descobrindo o lar
Descobrindo o lar, Desenhos de 2016 e 2013.

 

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