Moda exclusiva realmente deveria estar fora de moda

Hey, you! Tudo bem aí?

Meus caros, o texto de hoje será uma reflexão sobre algo recente que aconteceu e que realmente me inquietou. Como não assisto programas de televisão em rede aberta, não soube do ocorrido no dia exato, dia 20 de julho passado, mas assisti aqui ao programa para poder tecer maiores comentários.

Moda exclusiva realmente deveria estar fora de moda. Não é a toa que há tempos aboli do meu dicionário criativo a palavra exclusivo ou exclusividade quando desejo dizer que minhas estampas são desenvolvidas de modo especial e sob demanda única e personalizada a cada cliente. Moda exclusiva, exclui. Exclui quem não pode pagar o preço do produto que deseja; exclui a pessoa que deseja ter um estilo e não pode tê-lo; exclui pois segrega. E a moda, ao meu ver, deveria incluir. Modelagens que contemplem a todos os tipos de corpos e que respeitem a todos os estilos.

O texto de hoje trata-se do programa Esquadrão da Moda, do SBT. No último programa, “ajudaram” (sim, em muitas aspas mesmo, pois estou ainda tentando processar o que assisti) a uma moça de 30 anos que gosta do estilo Lolita. O estilo de ser, vestir, se portar de uma Lolita é sim, bastante peculiar.

FOTO 01 - APRESENTADORES
Apresentadores do Esquadrão da Moda. Foto: divulgação SBT.

Os adeptos do estilo vestem-se com roupas inspiradas no período Vitoriano e Rococó, com muitos babados, chapéus, saias rodadas e rendas. O estilo lembra o de uma boneca, pela delicadeza das roupas e pela etiqueta que os adeptos adotam para fazer parte do grupo. Não há decotes profundos, nem saias muito curtas. É tudo delicado, requintado e comportado.

FOTO 02
Moças vestindo Moda Lolita. Foto: divulgação Revista Circuito.

O estilo surgiu no Japão no final da década de 70 e início da década de 80. Esta reflexão não versará profundamente sobre o estilo Lolita em si, e sim, no modo desastroso com o qual o assunto foi abordado em rede nacional.

FOTO 03
Moça japonesa vestindo Moda Lolita. Foto: divulgação Mulher Versus Moda.

Afinal, moda deveria agregar e jamais segregar. Os grupos ou tribos se conectam sim, em torno de seus interesses comuns, mas não deveria caber à moda o papel de juiz sobre o que é certo e o que é errado no ato de comunicar-se através do que vestimos. Moda é expressão, é comunicação. E não é de hoje que sinto repulsa por este programa, sendo bem honesta.

Para quem quiser assistir ao programa na íntegra antes de seguir lendo este texto, seguem links abaixo:

Parte 01 do Esquadrão de Moda

Parte 02 do Esquadrão de Moda

Parte 03 do Esquadrão de Moda

Mas vamos por partes.

“Tina, tu entende a fundo este estilo Lolita”? Não. Não entendo. Tenho amigos que adoram o estilo; tenho outros amigos que participam de encontros nos quais todos os participantes vão a caráter; conheço pessoas que utilizam este modo de ser e de se vestir diariamente.

O que me chamou a atenção foram os pontos que citarei a seguir. Acompanhem, por favor, a minha linha de raciocínio.

A moça foi inscrita para participar desse programa pelo namorado, por uma amiga e por sua irmã. O namorado pareceu dar apoio, pelo menos durante os takes mostrados no programa. A irmã e a amiga mostraram-se incrivelmente incomodadas com o jeito de ser e de se vestir da protagonista em questão.

FOTO 04
Ao vestir este vestido, a moça ouviu que era muito caricato. Foto: divulgação SBT.

“Ela confunde fantasia com realidade”, disseram. Não, a moça não é lunática. Ela sabe muito bem que vive no século XXI, mas prefere vestir-se com um estilo que claramente a abraça, a contenta. Ela é delicada, atenciosa, gentil.

“É uma viajante do tempo”, zomba um dos apresentadores.  “É muito caricata”, complementa. Essas falas me soaram tão rudes, tão ásperas e beirando a crueldade, que precisei pensar aqui cá com meus botões: o que fez a amiga, a irmã e o namorado da moça pensarem que seria muito legal expor alguém que é visivelmente tímido e que possui nítidos traços de problemas com estima em rede nacional? Isso claramente me mostrou que não, não a conhecem.

“Viviane França é uma peça rara que parece saída de um museu”, diz uma das apresentadoras.

Ela tem o seu estilo, ela tem as suas escolhas. Peça rara saída de um museu?

FOTO 05
Viviane França, a moça convidada, usando uma de suas roupas Lolita. Foto: divulgação SBT.

“Ela não tem mais idade para se vestir assim”, diz a irmã. Mas alguém avisa a esta moça, por favor, que moda independe de idade?

“É uma boneca que caiu da estante de um brechó”. Quem disse isso foi a amiga da convidada. Não compreender ou não gostar de um estilo de ser, de vestir, de se portar, está completamente ok, ao meu ver. Basta que a pessoa não o vista, simples. Mas debochar de uma pessoa pelo que talvez e muito provavelmente faça parte de sua identidade, de seu jeito de ser e de ver o mundo, é debochar de algo que para esta pessoa é muito mais do que apenas moda. É não ter empatia para colocar-se no lugar do outro.

Inclusive, as pessoas que são adeptas a este estilo se esforçam para mantê-lo e divulgá-lo dentro do que consideram os moldes corretos do universo Lolita. Fala-se tanto em apropriação cultural, em empatia e sororidade, mas parece que programas de televisão em rede nacional, que mais atingem às grandes massas de nosso país, seguem nessa receita de bolo do deboche a la Silvio Santos.

“Preciso muito de vocês para trazer minha irmã para o mundo real”, diz a irmã da convidada. Alguém avisa a esta moça que a sua irmã está bem, obrigada? Ela sabe onde está, ela sabe onde vive, ela trabalha, é ativa socialmente e tem o seu estilo de ser, de se vestir, de se portar. Ela gosta, sim, de algo peculiar e que não é comum. Mas me digam, por favor, qual é o problema em não sermos comuns?

“Ajudem a minha amiga porque ela não pode mais ser uma bonequinha”, fala a amiga da convidada. Ela pode ser o que quiser, deveria poder ser o que quiser, vestir-se como quiser. Ela mesma costura as suas roupas, ela escolhe os tecidos, ela escolhe os adornos. Ela tem carinho pelo que cria.

“Seu guarda roupa parece um figurino de teatro”, diz o apresentador. Essa pessoa, por favor, não sei como ainda está apresentando este programa. Ou melhor, sei sim: vivemos na era da chacota do outro, do ‘rir de’ ao invés de ‘rir com’. Dá audiência, então seguem com pessoas ácidas em um programa ácido que mais presta um desserviço do que um serviço à sociedade.

“Seu estilo é muito diferente do resto das pessoas que habitam o planeta Terra”, diz a apresentadora. Apresentadora que no dia do programa estava vestida de modo bastante diferente do restante das pessoas do planeta Terra, inclusive. Estava linda, mas estava sim, com roupas diferentes das que podemos observar diariamente por aí.

FOTO 06
Apresentadora no look que usou no dia do programa. Foto: divulgação SBT.

Debocharam de materiais, dos bordados, do estilo, das formas, da estrutura do corpo da moça, dos seus gostos.

“Vamos voltar para o nosso lixo?”, diz a apresentadora. O “lixo”, são as roupas da moça. Roupas que não sabemos se foram feitas com sacrifício ou não, roupas que são parte dela, do que ela ama, roupas que fazem parte de um estilo de vida que ela adotou. Lixo?

“Vestido de gente normal, que não deve ser dela […]”, diz o apresentador. Oi? Gente normal. Por favor, o que a moça é? Anormal? Uma aberração da natureza? Uma ET que chegou envolta em babados, anáguas e rendas para chocar os terráqueos preconceituosos?

Viviane passa o programa todo constrangida e com as feições tristes. Quando começa a argumentar sobre o que pensa e a mostrar de leve e sutilmente o seu descontentamento, elas a induzem a gostar do que estão dizendo e a aprovar o que eles sugerem em tom de ironia e prepotência. Quem está em situação de poder ali? A moça, fuzilada por todos os lados? Ou os apresentadores? O que é mesmo que ela faria? Acataria o que estes estão dizendo, óbvio. Iria contra os apresentadores de um famoso programa de televisão?

FOTO 07
Visivelmente chateada com tudo. Foto: divulgação SBT.

 

Ela ficou com medo de entregar todas as suas roupas, porque visivelmente ama o seu estilo, e não entregou tudo aos apresentadores. Resultado? Eles a questionaram, pois “segundo as regras do programa, eles pagam R$12.000,00 por TODO o guarda roupa da pessoa que participa” e poderiam acabar ali mesmo aquela edição, pois ela havia infringido as regras.

Ela disse que não entregou todas as roupas por ter “um sentimento por elas”.  Isso cortou o meu coração. Cada um daqueles vestidos foi feito por ela. Volto a dizer: não sabemos de suas condições financeiras, nem psicológicas. Não temos como saber o que de fato custou a ela ter que se desfazer de cada uma daquelas peças, em meio a risos e a deboches.

“A gente não vai parar o programa por que a gente quer que você entenda que você precisa ser uma mulher contemporânea”, diz o apresentador. Mas o que é ser uma mulher contemporânea? Primeiro de tudo, meu senhor, não é teu lugar de fala. Não és mulher para saber o que uma mulher é ou deveria ser. Em segundo lugar, a mulher contemporânea é tudo aquilo que ela quiser ser, muito obrigada. Direitos que estamos conquistando a duras batalhas, diariamente.

A produção foi até a casa da moça buscar as roupas que ela não entregou. Sim, isso mesmo.

Gente.

Ela ama o seu estilo. Ela está feliz sendo como é. A irmã e a amiga fazem o que? A inscrevem nesse programa porque elas sim estão incomodadas e envergonhadas com o estilo da moça. A moça em si? Fica desconfortável apenas com os julgamentos de algumas pessoas e em alguns locais aos quais frequenta, o que é mais do que natural, mas não com o seu estilo! O seu estilo me parece que a blinda de uma série de coisas. Ela se sente bem, bonita.

Quiseram transformá-la em uma pessoa que ela lutou a vida toda para não ser, muito provavelmente.

Outros comentários que me chamaram a atenção quando assisti ao programa: “o que você precisa é voltar para os anos 2000”, “seu cabelo está muito antiquado, parece uma vovozinha!”, “tem que se libertar desse cabelo datado”, “tem que se libertar”[…]

Ela está nos anos 2000. Ela vive o seu estilo em sua própria época. Não faz mal a ninguém sendo como é, agindo como prefere e vestindo o que a deixa feliz. O cabelo dela era geralmente preso em coques. Ela faz alisamento nos cabelos e o prende pois gosta dessa forma. O cabelo está clássico, está preso, não havia nada de ruim nele. Era dela. Ela se sentia livre, ao seu jeito, ao seu modo. Não precisava se livrar de nada, exceto desse papelão em rede nacional e das pessoas que dele fizeram parte.

Ela disse que gosta de batom rosa. A maquiadora simplesmente disse “vai usar batom vermelho, sim! Tem que ser um mulherão Pin –Up” e cita quem como exemplo de celebridade para a referência da make?

Dita Von Teese, considerada símbolo sexual, sempre sexy e super maquiada.

The Art of the Teese Tour Poster
Dita Von Teese. O que este estilo tem a ver com moda Lolita?

Me digam o que essa referência tem a ver com o tema Lolita? Não encontrei comparação.

Os apresentadores fizeram inúmeros comentários inconvenientes. Alguns deles: “e o namorado hein? O que ele vai achar?”, “ele vai babar!”, “vai beijar muito essa boca!”. Bom, assim espero que ele goste mesmo, beije mesmo, etc. Afinal, ele a conheceu vestindo Lolita e fez parte desse quadro doloroso de querer mudar a pessoa que namora.

Vestir-se bem, vestir-se mal – isso é tão, mas tão subjetivo. Reconheço que conhecer o formato de nosso corpo, procurar por um estilo que nos caia bem e que faça com que nossas curvas sejam valorizadas, é sim, importante – mas apenas é importante para quem dá a devida importância a isso. No caso da moça, talvez fosse o estilo Lolita aquele que mais a acarinhou na moda.

Conseguiram o que tanto queriam: Viviane está com cabelo iluminado, solto, batom vermelho e roupas da Antix e calçados Melissa, em uma releitura do Lolita – que os apresentadores assim consideraram uma releitura do estilo, sem conhecimento de causa.

FOTO 09
Viviane ‘repaginada’. Foto: divulgação SBT.

Agora eu cheguei no último ponto que gostaria de tocar através deste texto. Recentemente soubemos do caso da moça chamada Alinne Araújo, dona do perfil do Instagram @sejjesincera, que após o rompimento do relacionamento com o noivo um dia antes de casar, optou casar-se sozinha em uma cerimônia dela para ela. Após tantos ataques que acabou recebendo pelas redes sociais, Alinne suicidou-se. Jogou-se do nono andar do prédio onde morava. Escrevi um texto sobre essa triste notícia, que você pode ler clicando aqui.

Pessoas dizendo que Alinne fez certo mesmo, em casar-se sozinha e feliz; pessoas a chamando de tudo e mais um pouco; pessoas atingindo o noivo, jogando o peso do suicídio da noiva em seus ombros. Um caos instaurado na realidade de vidas atingidas por pessoas que muito provavelmente nunca viram pessoalmente.

Vocês entendem o quão irresponsável é esse tipo de programa como o Esquadrão da Moda? Em uma era de feira de vaidades, Instagram e demais redes sociais, jogar pessoas aos leões e às críticas dessa forma, não é saudável. Falar sobre qualquer assunto sobre o qual não temos real conhecimento é sim, irresponsabilidade. Sabemos sobre o psicológico da moça? Não. Sabemos se ela gosta do estilo por realmente se encontrar nele ou por tentar fugir de uma realidade? Não sabemos. Então me digam, como podemos julgar, achar que está tudo bem e seguir? Eu não entendo, de verdade, quais os rumos de tudo. Quando foi mesmo que deixamos de nos importar?

FOTO 10
Viviane ‘repaginada’. Foto: divulgação SBT.

Viviane fecha o programa dizendo que está feliz, que amou. O cabelo novo está igual ao de muitas moças que passam por nós na rua; agora ela ganhou calças jeans para usar e blusas bolsas com alguns laços; ela está maquiada com o batom vermelho que não gosta de usar. Ela diluiu-se no universo do ‘aceitável’. Deixou irmã, amiga e namorado contentes, provavelmente.

O que mais poderia dizer? Ela deveria dizer que não gostou? Em rede nacional isso fica complicado. Ela ficou bonita? Sim, ela é uma moça bonita. Ficaria bonita em qualquer traje, em qualquer estilo. Pena que não foi possível seguir com o seu próprio.

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