A ética na moda – como deveria ser pensado o conteúdo do conteúdo? Conheça o Criativo Graphique e sua indicação de um possível – e maravilhoso! – caminho

Olá! Tudo bem com vocês? Aqui amanheceu um dia lindo, cheio de novas possibilidades e, sempre, mais algumas reflexões. Pensar nem sempre é um processo simples, não é mesmo? Eu diria até que quase nunca o é. Mas é necessário. Por isso, o tema da coluna de hoje é sobre ética na criação de conteúdo e produtos de moda. Uau! Arrepiou por aí?

Eu sigo arrepiada aqui desde que o primeiro lampejo de pensamento sobre este tema me atingiu, cerca de uns quase 12 anos atrás, quando ao trabalhar para marcas de moda do Rio Grande do Sul, deparei-me com a entrega de 3 bolsas aos meus cuidados – uma Prada, uma Gucci e uma Dior. Os couros foram recortados a fim de que eu pudesse “escanear melhor as texturas para reproduzi-las em couros gravados exclusivos”.

Oi? Parei e olhei perplexa aquele crime disposto bem em frente aos meus olhos, sorri aquele sorriso amarelo próprio de quem está em início de carreira e não quer ser rude com clientes em plena reunião de construção de nova coleção… e pensei:

Uma frase que contém ‘escanear melhor’, ‘reproduzi-las’ e ‘couros exclusivos’, me parece muito contraditória.

E é mesmo. A diferença é que o tempo forja as opiniões e amadurece os nossos sentidos. O meu feeling foi aguçado e hoje, com anos de experiência, compreendo como pode ser o posicionamento de um profissional que trabalha com criação de moda, seja criando conteúdo de pesquisa, seja desenvolvendo produtos. Foi um processo simples e automático o de conhecer essas diretrizes sutis que separam o ético do antiético? Não. Nem um pouco. Consigo eu hoje, pesquisadora e desenvolvedora de materiais de moda, fechar meus olhos castanhos amendoados (ui, um pouco de poesia dá um toque divertido, vamos lá!) para o que percebo ao meu redor? Jamé.

Mas então, Tina… conta aí: como que deveria ser pensado o conteúdo do conteúdo?

Parece redundante? Parece. Mas não é. Pensem comigo.

Todos os conteúdos de pesquisa que chegam até nossos olhos, sobretudo os que chegam por vias digitais, através de e-mail marketing diversos, blogs, redes sociais, programas de televisão, Netflix […] passam de fato por algum filtro de autenticidade, veracidade, pesquisa aprofundada, busca por referências bibliográficas? Todos, sem exceção, estão realmente credenciados a se autoproclamar ‘conteúdos de pesquisa de moda’? Ou estariam, em grande parte, embasados por ‘achismos’ e ‘eureferências biográficas’? Ah, pois é…

Do mesmo modo que a era digital possibilitou o acesso à informação de qualidade, ampliando o alcance de conteúdo relevante às pessoas que anteriormente não poderiam tê-lo, o que é in-crí-vel (diga-se de passagem), vamos combinar que o acesso ao lixo fantasiado de verdade recebeu lá uma roupagem sinistra e auto-credenciadora que olha, é no mínimo, preocupante.

A cada dia que passa, mais e mais ‘influencers’ nascem em redes sociais, colecionando likes e followers, dizendo o que pensam, o que sentem, o que acham sobre diversos assuntos. As marcas nacionais que antes destinavam uma quantia generosa às viagens de pesquisa de suas equipes de estilo, hoje passam a reduzir drasticamente esse investimento. Quando muito, um ou outro integrante da equipe pode viajar e pesquisar, olhando com seus próprios olhos o que já é comercializado lá fora, para trazer o velho fantasiado de novo de volta aos trópicos. Para mim, isso nada mais é do que o ato de regurgitar o já conhecido e fazer de conta que é novidade. Afinal, se algo tende a alguma coisa, é sinal de que já passou de novidade há eras, não é mesmo?

Misto de insegurança e desejo de fazer vender, muitas marcas optam por seguir as receitas de bolo já aclamadas internacionalmente e partem, desse modo, suas jornadas pelo mesmo-caminho-já-trilhado, oferecendo uma gama de mais do mesmo aos seus consumidores que sim, ficaram sabendo sobre as trends internacionais e desejam produtos similares, mesmo que sejam praticamente cópias.

Mas Martina, não dá para ignorar o que vende! Tem que ter foco em resultados!

Claro, foco em resultados sempre! Mas é possível, sim, mostrar o que é trendy lá fora e indicar novos caminhos com um olhar menos copiado e mais autêntico aqui, voltado ao nosso próprio contexto. Esse ato de decodificar o que é visto e realocar no mapa geográfico do planejamento de coleção essas imagens de modo a contemplar o que de fato é relevante ao mercado em questão,  isso sim, caros amigos, é pesquisa de moda fundamentada. E uma pesquisa de moda bem feita, olha ao redor, ao contexto, pesquisa em livros, revistas, entrevista profissionais, cerca-se de novas reflexões todos os dias, bebe com avidez da fonte da cultura dos povos e mescla isso tudo em cores, formas, sensações e desejo de consumo – após um intenso e aprofundado ritmo de estudo, pois o risco de cair nas armadilhas da apropriação cultural, é grande.

Apropriação Cultural na moda é, dando um resumo bem a grosso modo, quando um fato isolado de uma cultura ‘x’ não é estudado e respeitado o suficiente antes de virar produto e deste ser comercializado à exaustão, calando as fontes de pesquisa originais e ressignificando muitas vezes de forma precária e inverdadeira o sentido primeiro deste fato.

E é agora que eu quero apresentar a vocês o Graphique). O Graphique lançou recentemente a primeira edição da revista digital Graphiqueria, na qual constam materiais muito interessantes sobre pesquisa de moda e sobre este tema de apropriação cultural. Inclusive, aproveito para recomendar a leitura da revista, cuja segunda edição sairá ainda esta semana e pode ser adquirida neste endereço.

Graphique 02 - Primeira Edição
Primeira Edição da Revista Graphiqueria

Mas vamos apresentar esses pesquisadores direito, como merecem. O Graphique é, conforme texto divulgado em seu site:

[…] uma plataforma de conteúdo sobre estamparia. Com mais de 10 anos de experiência de mercado, trabalhando com as principais marcas nacionais da indústria têxtil, hoje é especializada em consultorias, produção de conteúdo, pesquisa de tendências e no processo criativo do design de estampas.

O direcionamento criativo é de Daniel Moraes, designer de estampas e artista visual com portfólio no qual constam marcas como Colcci, Blue Man, Cantão, Helô Rocha, Ellus dentre outras marcas nacionais; bem como projetos de colaboração de grande destaque – criação da linha de porcelana de Costanza Pascolato para Copa e Cia, linha Floral Hype para Cícero Papelaria, criação de mural para o projeto Melissa+Art. Além disso, promove há mais de sete anos cursos, oficinas e palestras sobre o processo criativo na área de estampas.

O Graphique conta também com uma equipe de colaboradores criativos que está sempre em transformação, com a qual trabalha para criar um fluxo contínuo de ideias originais e dinâmicas. Possui como objetivo ajudar no aperfeiçoamento do mercado de estampas brasileiro, e servir como ponto de referência para a geração de conhecimento e conteúdo, de modo a ajudar na evolução da prestação de serviços – tanto para profissionais quanto para empresas. […]

 

Entrevistei o Criativo Graphique que, gentilmente retornou com suas respostas – o que no mundo da moda, é motivo de aplausos. Sabe-se o quão egoico este universo é, e poder contar com profissionais que de fato desejam compartilhar conhecimento e expandir o acesso ao conteúdo de qualidade, é a glória. Deixo aqui o meu agradecimento especial à Flavia Lozano, super atenciosa.

Confira a entrevista abaixo:

Martina Viegas (Drops do Cotidiano): Qual a relação que o Graphique enxerga entre moda autoral e apropriação cultural? A apropriação não seria um bom exemplo de prática de cópia?
Criativo Graphique: Apropriação cultural é um problema muito profundo e que encontra, no mercado criativo, um terreno fértil. A necessidade de criar novidades constantemente não permite uma pesquisa mais aprofundada, e a consequência direta disso é que inserimos nas nossas criações símbolos e histórias que não entendemos e que não são nossas. A moda autoral vai exatamente contra esse movimento, pois prevê um processo criativo autêntico e aprofundado. Não quer dizer que não podemos usar outras culturas como inspiração, mas que precisamos entendê-las, estudá-las e respeitá-las para, depois, criarmos algo novo.

E precisa ser inclusivo. O grande problema da apropriação cultural é que a indústria toma para si algo que não é dela, e lucra em cima dessas criações, enquanto os reais criadores daquele conceito continuam sendo marginalizados e desvalorizados. Ótimos exemplos de projetos que utilizam expressões culturais como base e conseguem evitar a apropriação cultural são a coleção Resort 2020 da Dior e o Projeto Ponto Firme. Prova de que dá pra fazer, sim, e em todas as camadas do mercado.

Projeto Ponto Firme 01
Um dos looks do projeto Ponto Firme, que trouxe um bem-vindo elemento social e político à semana de moda Foto: Andre Penner/AP Photo. Divulgação Estadão.
Projeto Ponto Firme 02
Look do projeto Ponto Firme Foto: Miguel Schincariol/AFP PHOTO. Divulgação Estadão.

M: O que motivou vocês a escreverem a Graphiqueria?
CG: A Graphiqueria é o projeto mais recente de uma série de lançamentos do Criativo Graphique, que nasce de uma necessidade – nossa e do mercado – de criar uma plataforma para conteúdos mais aprofundados, didáticos e interessantes dentro do universo da estamparia brasileira. Esses conteúdos são quase inexistentes, principalmente em português. A estamparia tem uma importância fundamental na comunicação de design e branding, e os criativos que fazem parte desse processo precisam ser informados, bem treinados e inseridos na realidade para conseguirem desenvolver projetos inovadores e originais.

Criar uma revista digital foi a nossa maneira de colocar no mercado conteúdos acessíveis e que consigam chegar mais longe, que não fiquem rodando só nos círculos criativos dos grandes centros urbanos. Acreditamos que é através de profissionais informados e bem posicionados que a indústria criativa brasileira conseguirá conquistar o seu merecido espaço, com pesquisa, inovação e design autêntico. O objetivo geral de toda a nossa comunicação é ajudar nesse processo e evolução e educação do mercado. Juntos vamos mais longe!

M: O que é, para vocês, criar com verdade?
CG:
Criar com verdade é ser autêntico. Cada um de nós tem as próprias vivências, experiências, valores. Uma pessoa, uma empresa, só podem falar daquilo que conhecem e só podem crescer sendo honestos consigo mesmos e com o público que acompanha essa evolução. Criar com verdade é entender que estamos em constante evolução, que toda criação tem impacto, e que é nossa a responsabilidade de criar um impacto positivo. O design e a moda tem um potencial enorme, precisamos pegar esse poder nas nossas mãos para criar as mudanças que queremos ver no mundo!

Em tempo: o projeto Ponto Firme mostrou uma coleção diferente na SPFW de 2018. Essa coleção foi capaz de materializar sentimentos em produtos, mostrando a vida e a realidade no cárcere. O projeto Ponta Firme ensina detentos em Guarulhos a fazer crochê.

A coleção Resort 2020 da Dior foi simplesmente maravilhosa. Pesquisaram profundamente a África e suas estampas, trazendo à passarela um olhar rico de significado cultural. Dior mostrou lindamente como é possível sim, criar com referências sólidas que não invalidem a essência e a relevância cultural de um povo.

Graphique 03
Imagens de looks Dior da coleção Resort 2020. Divulgação Graphiqueria edição 01.

Ainda sobre o Criativo Graphique, design autêntico e apropriação cultural, recomendo que vocês acessem a este link e a este link também, onde Gabriel Azevedo passa alguns relatos bem bacanas no bate-papo rapportado.

Espero que tenham apreciado a leitura e aguardo vocês daqui quinze dias aqui! Vamos seguir desenvolvendo conteúdos que possuam de fato, conteúdo? Um grande beijo.

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