Street Food – a cultura dos povos enquanto sabor vivenciado

Olá! Tudo bem com vocês? Por aqui, tudo bem e muito feliz por estar com vocês em mais uma coluna escrita aqui para o Drops. Hoje falarei um pouco sobre um dos melhores documentários que já assisti – Street Food – promovido e disponível no serviço de entretenimento do Netflix.

.02
Imagem reprodução Netflix

Arte, música, gastronomia, povos, ritos, necessidades, comportamentos, estruturas sociais, design, moda, criatividade, luta, garra, vontade de vencer, precisar fazer algo dar certo – não importa como, quando, desde que dê certo – luto, choro, alegria, risos, fracassos, vitórias, batalhas, jornadas. Esses são alguns dos muitos ingredientes que estão cozinhando juntos neste gigante caldeirão que é a cultura.

Mas Martina, espera um pouco aí: o que é mesmo, cultura? Vamos pelo começo, pois o assunto de hoje é belo, um de meus favoritos e sim, bastante complexo.

Muitos autores renomados já dissertaram sobre o que vem a ser Cultura. Dentre eles, um senhor pelo qual tenho grande apreço – Zygmunt Bauman – escreveu uma série de livros sobre assuntos correlatos a este, indicando suas impressões e reflexões sobre o conceito por ele designado de ‘liquidez moderna’, que nada mais é do que, a grosso modo, a relação existente na instabilidade das estruturas sociais, comportamentais e culturais entre a humanidade do mundo moderno.

Coloquialmente, podemos entender por cultura como o complexo conjunto que engloba nossos conhecimentos, nossas crenças, leis, moral, tradições, costumes, arte e hábitos humanos. Tal conjunto de fatores pode ser observado nos aglomerados de pessoas que constituem suas famílias, mas também nos aglomerados maiores que originam as sociedades, os países e em âmbito mais abrangente, o planeta.

Dito brevemente o que é cultura, voltamos ao tópico principal deste texto: o seriado Street Food, do Netflix. Confesso que aprecio muito navegar pelas opções do Netflix e escolher algo instrutivo e edificante para assistir enquanto faço as minhas refeições. E em um desses gratos momentos dados pelo Universo como presente, eis que paro na chamada do Street Food – que literalmente quer dizer “comida de rua” – e assisto ao trailer, que me chama a atenção.

.03
Imagem divulgação Netflix

Street Food possui por enquanto apenas a sua única temporada de estreia, mas acredito que outras virão devido ao grande sucesso obtido com a temporada denominada Asia, a qual contou um pouco sobre as tradições de alguns países asiáticos e suas principais comidas populares – as street foods.

A primeira temporada possui 9 episódios, cada um retratando alguma comida de rua desses países: Tailândia, Japão, Índia, Indonésia, Taiwan, Coréia do Sul, Vietnam, Singapura e Filipinas.

Street Food é um documentário produzido pelos mesmos criadores de Chef’s Table. As imagens são ricas. Os relatos desses chefs asiáticos são incríveis e tocantes. Sinto que a principal motivação do seriado foi a de trazer à tona sentimentos que giram em torno do alimento, como se estes fossem parte indiscutível das receitas populares. A comida é mesmo, o nosso lugar comum. Por lugar comum, compreendo um local no qual nos reunimos com pessoas a quem amamos e desfrutamos juntos de momentos e alimentos. O ato de nos alimentarmos é um ato de amor, de união, de troca, de partilha, de entrega. Se cozinhar é amar ao próximo, o ato de reconhecer no alimento a vontade de agradecer por tê-lo à mesa, também o é.

As comidas vendidas nas ruas desses países asiáticos são entregues em pratos descartáveis, dentro de sacos plásticos ou dentro de folhas de bananeira. Que incrível reconhecer na folha de bananeira, uma folha que possui cerídeos naturais que a impermeabilizam, um excelente e natural receptáculo para a comida!

.04
As folhas de bananeira servem como pratos e os alimentos são distribuídos neles aos clientes, a exemplo das street foods da Indonésia.

Em todos os episódios, fica claro que as street foods surgiram devido às necessidades dos povos. O pós-guerra de diversos desses países trouxe consigo uma devastação imensurável e uma escassez gigante de produtos, sobretudo de alimentos. As populações pobres e sem renda, lutavam para se manter em pé e reconstruir suas vidas, precisando nutrir-se. Os cozinheiros de rua surgiram com propostas inusitadas de venda de alimentos não comuns anteriormente: cabeças de peixe que antes eram descartadas, passaram a ser fritas; ensopados de enguia, que antes não eram utilizadas para este fim, passam a ser comuns devido ao fato de serem os animais marinhos de mais fácil acesso na pesca; a presença do arroz nos pratos é muito forte, tanto em suas versões de doce, quanto em versões de opções salgadas. Interessante saber que os grãos quebrados de arroz eram descartados ou vendidos como segunda linha de alimento, passando a virar alimento dos menos favorecidos.

.05
Ensopado de enguias. Foto retirada do documentário Street Food, Netflix

A street food serve aos ricos e aos pobres o ato primário de nutrição. Todos nós precisamos comer para sobreviver, certo? Eu considero esse um dos pontos mais bonitos de todo o documentário: a street food não discrimina, ela não segrega; pelo contrário, ela reúne e é a expressão gastronômica mais real e autêntica da cultura dos povos.

No ocidente, se pensarmos por exemplo no nosso país, Brasil, o hábito de comer fora de casa é tido como espécie de luxo, em muitos casos. Optamos por restaurantes caros, requintados, versões de pratos elegantes, gastamos pequenas fortunas pelos poucos minutos de prazer ao redor de uma mesa bonita e “instagramável”. No nosso país, os trabalhadores que não podem ir às suas casas para almoçar, possuem duas alternativas para a alimentação diária: fazem marmitas e as levam ao trabalho; procuram por opções a quilo em restaurantes simples nas redondezas das empresas para as quais trabalham.

As street foods no entanto, geram uma comoção de reunião festiva ao seu redor. Elas unificam as sociedades asiáticas e oferecem uma sensação de pertencimento aos povos que delas fazem parte e aos turistas que as visitam e desejam experienciar sua cultura local.

  • Algumas pessoas dos países citados no documentário são tão pobres, que não possuem fogões em suas casas. Para nós, muitas vezes acostumados a ter de tudo, a ter do bom e do melhor, é difícil até mesmo imaginar como é a projeção de estarmos na pele dessas pessoas. E ao contrário do que pode-se imaginar, estas sorriem, felizes, compartilhando o pouco que possuem com outras pessoas, mais ricas ou mais pobres que elas, através de suas comidas de rua. O próprio conceito sobre riqueza literal perde o seu valor quando assistimos a este documentário. O que é mesmo, ser rico? Ter dinheiro? Enxerguei tanta riqueza nos relatos que assisti nessa série!

As street foods vieram dessa necessidade humana de alimentar o corpo, mas a comoção que geram pelas motivações pelas quais surgiram, aquecem o coração: são, na minha opinião, a principal herança gastronômica e cultural asiática.

As barracas dos vendedores de rua são geralmente gerenciadas por membros da própria família. Os valores de reunião familiar em prol do objetivo comum de conseguir o seu sustento, é algo para além do bonito: é necessário.

Um aspecto que considero muito interessante e que é muito bem retratado durante toda a série, é a elevação da street food como sendo a mais democrática das festas populares. A exemplo disso, no primeiro episódio, passado na Tailândia, o documentário traz a informação de que há anos atrás o governo do país havia passado a ser mais restritivo quanto às práticas de vendas de street  foods. Para os governantes de Bangkok, as barracas dos feirantes estariam ‘tirando o lugar dos contribuintes’, e os cozinheiros de rua seriam ‘parasitas sociais’. Ora, tais afirmações indicam apenas a incoerência sendo verbalizada: nada mais popular do que os street foods; cozinheiros e chefs de street foods são contribuintes da mesma forma que outras pessoas atuando em outras profissões; as comidas vendidas nas ruas tailandesas alimentam estômagos de pobres e de ricos, sendo que os próprios vendedores não fazem distinção em relação a quem estão vendendo seus alimentos ou a quem estará consumindo de suas barracas. Incoerências políticas não são mesmo algo visto apenas por aqui, entre os trópicos…

As histórias de vida de cada um desses chefs de rua, são fantásticas. Que vivências, que força de vontade e que desejo maior que eles de vencer! Histórias inspiradoras. Assisti a cada um dos episódios pensando “que bacana! Essa senhora existe e é assim forte”, “nossa, genial! Fritar cabeças de peixe para alimentar a população”, “que senhor simpático e cheio de vida!”. As pessoas são mesmo, fascinantes. Todas as pessoas do seriado carregam um forte apelo por vida, por luta.

Jay Fai, uma senhora tailandesa de 73 anos e tema do primeiro episódio da série, cozinha e vende seus alimentos como street food há mais de 40 anos. Precisou iniciar neste ramo quando aos seus vinte e poucos anos, viu seu pequeno atelier, tecidos e máquina de costura serem engolidos pelo fogo de um incêndio. Destruída financeiramente e emocionalmente, precisava dar um jeito na sua vida e tirar o seu sustento de algum lugar. Começou a vender macarrão na rua e hoje é conhecida como a melhor chef de street food da Tailândia.

Famosa por transformar pratos simples em iguarias muito procuradas, Jay Fai afirma que sempre deixa claro aos seus funcionários: “Vocês podem ser mais jovens, mas eu sou mais forte!”

É interessante perceber como Bangkok está mesmo presa no limbo entre dois mundos: de um lado, cada vez mais moderna e seguindo os passos de grandes metrópoles; de outro, apegada às tradições de street foods e a toda a carga emocional e cultural imbuída a esta prática. A modernidade precisa mesmo abolir as barracas de comida populares? Essa ‘higienização’ visual das grandes cidades não estaria acabando por destruir tradições e mascarar as histórias e culturas dos povos? O que seria, mesmo, o tal do progresso? Esquecer de onde viemos, nossas origens, quem somos? Do ponto de vista cultural, essa questão traz à tona também a indagação quanto a uma possível crise de identidade que poderia ser iniciada em locais que tiverem suas histórias e vivências varridas para o ralo da rua junto com as memórias dos street foods: não seriam estes alimentos, parte de quem os adquire, consome? O sustento de famílias?

Jay Fai disse algo que me marcou bastante. A ex-costureira da juventude que se reinventou cozinheira de street food e ressignificou a ação do fogo na sua vida, disse que os “ensinamentos das panelas de ferro, suas woks e do fogo a carvão em brasa lhe ensinaram a ser corajosa e esperta”. Estaria ela dizendo que a sua coragem ao encarar estas panelas e os desafios que o cotidiano lhe oferece é maior do que qualquer medo que já possa ter sentido, ou frustração por ter perdido o seu sonho de costurar vestimentas como outrora? Estaria Jay afirmando que a sua esperteza foi adquirida pelo respeito ao fogo e seu poder, e que por isso hoje em dia cozinha uniformizada e protegida conforme a foto abaixo? A esperteza seria um aviso diário aos perigos do fogo, que anos antes destruiu sonhos para anos depois, cozinhar novos? Perguntas deliciosas que ficarão sem resposta literal, embora eu tenha minhas teorias.

.06 Jay Fai
Jay Fai e sua mágica culinária. Foto retirada do documentário do Netflix

 

Toyo, um senhor japonês também chef de street foods e residente de Osaka, diz que: “Você precisa ser forte para criar a sua própria corrente. Não terá bons resultados se só for na onda”.

E assim foi marcada a vida desse senhor, que ainda jovem precisou adiar seu sonho de montar a sua barraca de street food para arcar com os gastos do velório e enterro de seu pai. E embora seu pai não tenha sido um exemplo a ele no sentido de dar amor, carinho e proteção, posto que bebia e batia em Toyo, mesmo assim o filho abriu mão de seu sonho para fazer o que julgou correto a seu pai. Essas histórias fazem pensar. Fazem com que nós voltemos um pouco na máquina da memória e percebamos o quão bobos e injustos somos muitas vezes quando maldizemos situações triviais que não ocorrem exatamente como desejamos. Quantas e quantas vezes esses chefs de street foods precisaram reinventar-se? Reconstruir-se?

Osaka é considerada a verdadeira cozinha do Japão. É conhecida por oferecer grande número de pratos de street food aos transeuntes. Come-se muito em Osaka. E come-se bem. Toyo comanda a barraca Izakaya Toyo há mais de 26 anos.

.08Toyo
Toyo e sua habilidade culinária. Foto do Netflix.

O Japão possui um viés cultural muito rico. Eu particularmente sou fascinada pela cultura japonesa. É hábito no Japão o ato de agradecer pelas refeições, reverenciando a vida do alimento que está à disposição para saciar a fome. A seriedade desse povo e o apreço às tradições é, em parte, devido ao fato da escassez de alimentos que o povo vivenciou antigamente e a toda a força com a qual precisaram encarar as duras perdas e realidade ao reconstruírem o país destruído pela guerra.

Toyo é o retrato desse povo, forte e vigoroso, corajoso. “Prefiro ser cabeça de galinha, do que rabo de touro”, ele diz, referindo-se ao fato de que é muito melhor ser dono de seu próprio e pequeno negócio, do que fazer parte de uma empresa maior na qual não conseguimos nos destacar e nem fazer a diferença.

Brincalhão e comediante, Toyo afirma: “Resolvi transformar infortúnios em alegrias”. “- e como se faz isso?”, pergunta um cliente. Ele responde: “Sou transformado pelo sorriso de meus clientes”.

.07 Toyo
Toyo sempre simpático com seus clientes. Foto do Netflix.

Mbah Satinem é outra grande chef de street food, na Indonésia. A senhora simpática e sorridente que há 50 anos faz o doce chamado Jajan Pasar, serve seus alimentos vendidos em folhas de bananeira, está sempre de bem com a vida e mesmo vivendo uma vida simples diz estar orgulhosa de sustentar a sua família com street foods.

O doce Jajan Pasar é feito de açúcares de Palma, arroz, mandioca e coco. Trata-de de uma receita tradicional de doce caramelizado, muito popular na região.

.09 Mbah Satinem
Mbah Satinem, sua alegria e sua vivacidade por amar cozinhar. Foto do Netflix

Cada episódio conta sobre uma receita de street food de um país asiático e a contextualiza em sua cultura correspondente. Se te apetece um enredo rico, leve e dar água na boca, misturando cultura, sonhos e tradições de povos que batalham tanto por seu sustento sem deixar de honrar suas histórias e trajetórias, sim, assista.

Street Food é um daqueles documentários que nos emociona, pois ao trazer relatos reais e contextualizar cronologicamente a cultura, faz com que seja possível compreender que cada ser humano é mesmo, uma peça na engrenagem social do mundo. E cada peça conta, cada jornada de vida relata um capítulo desse grande livro cultural.

.10
Espetinhos de street food, muito comuns nas barracas dos comerciantes asiáticos. Foto Netflix

Sobre o progresso das sociedades que ficam em dúvida sobre se devem ou não abolir o comércio de street foods, convido vocês, caros leitores, a analisarem as duas imagens abaixo. A da esquerda possui autor desconhecido e mostra Osaka, no Japão, com suas ruas cheias de comércio de street foods e abraço ao apelo tradicional. A imagem da direita, retirada do Flickr e de autoria de Pedro Szekely, mostra uma Osaka vista de cima, iluminada e moderna com seus prédios gigantes. Deixo com vocês uma última inquietação: será mesmo necessário apagar a história dos streets foods japoneses para que a modernidade da Osaka de arquitetura opulenta e majestosa se sobressaia? Ou não seria justamente a existência dessa mágica dicotomia que deixa o local tão fascinante, acolhendo aos modernos e aos tradicionais sem abrir mão de sua essência?

Contrastes

Ansiosa pela próxima temporada.

Um grande abraço a todos e até a próxima coluna!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s