Fast Revolution Brasil e o índice de transparência da moda: o quão bem tu conhece as marcas dos produtos que adquire?

Hoje é um dia muito feliz: minha estreia aqui no Drops. Falarei sobre um dos temas que mais me atraem – cultura – e abordarei de modo interdisciplinar assuntos que se complementam e que juntos compõem essa colcha de retalhos que carinhosamente chamo de estrutura sócio-comportamental-cultural.

Dessa forma, o assunto de hoje é complementar aos posts anteriores de minha colega colunista Bruna Leão, os quais falam sobre Slow Fashion e Fashion Revolution. Indo no viés do pensamento da indagação “quem faz as minhas roupas”, proponho uma reflexão que inicia com a seguinte pergunta: o que me faz comprar o que eu compro? E a partir desta primeira interrogação, proponho uma segunda: eu preciso mesmo comprar tudo o que eu compro?

O ritmo alucinado da cadeia de fast fashion e a grande procura por novidades a preços acessíveis e que tragam pinceladas das tendências vistas nas passarelas internacionais, incitam fortemente o consumo de produtos. O desejo de pertencimento, de fazer parte de um grupo e de ser aceito por ele, muitas vezes traz à tona a vontade de adquirir muito mais do que realmente precisamos.

A moda, intimamente relacionada com nossa vaidade e desejo estético, oferece preços variados de produtos, para as mais diversas realidades sociais. Entretanto, é importante pensar nos reais motivos que fazem um moletom Gucci valer R$ 4.780 e uma blusa Chloé valer R$ 7.579 em um mesmo e-commerce de marcas internacionais, enquanto que uma blusa com estampa semelhante é vendida por uma rede de fast fashion brasileira por R$ 39,90. Estampas com um mesmo motivo gráfico replicadas em produtos distintos e com valores mais distintos ainda.

esquerda para direita_chloé, gucci, fast fashion brasileira
Da esquerda para direita: Chloé, Gucci e Fast fashion brasileira

Obviamente, o prestígio da marca influencia no preço. A qualidade do produto – tecidos, caimentos, acabamento, materiais utilizados na confecção, mão de obra […] – muitas vezes acabam também influenciando o custo final. Sabemos que moda, identidade e cultura são áreas que se mesclam e se complementam. Sabemos, também, que o consumidor de hoje está cada vez mais antenado com o que acontece no Brasil e no mundo em termos dos mais variados assuntos,  conseguindo facilmente fazer relações analíticas entre tais assuntos, moda e consumo.

Se antes a indumentária era apenas um modo de cobrir nossos corpos e de nos agasalhar, hoje a moda transcende esta função e alcança o status de agente identitário que por muitas vezes age de modo excludente. Desejamos possuir artigos de marcas renomadas, mas nem sempre podemos adquirir tais produtos.

Estas marcas reforçam seu prestígio em semanas de moda internacionais e mostram nas passarelas o que o consumidor deve esperar nas araras mundo afora. A moda varejo, por sua vez, decodifica essas tendências e as massifica de modo que grandes redes varejistas possam ofertar um produto de estampa semelhante a um valor tantas vezes inferior. Até aí, tudo bem. Compreende-se que da mesma forma que o consumidor de poder aquisitivo superior deseja um produto  de estampa de zebra, o consumidor com menor poder aquisitivo tem o direito de possuir o mesmo desejo de consumo. A pergunta que deveria inquietar e que muitas vezes não o faz, é: como que um produto semelhante pode custar tantas vezes menos? Se um produto está à venda por menos de R$ 40,00, este produto ainda está com margem de lucro de no mínimo 30%. As estampas de produtos comercializados no Brasil são oriundas na maior parte das vezes da China e da Índia. Importados em grande escala, estes tecidos ou produtos já manufaturados passaram por muitas mãos diferentes até chegarem às araras de uma fast fashion brasileira. E o que faz pessoas investirem mais de R$ 7.000 em uma roupa que facilmente pode ser encontrada por R$ 40? O ato de possuir uma roupa renomada de marca que nem todos possam adquirir. Mas o que faz esta peça custar tão mais barato e qual o real preço que pagamos enquanto sociedade por este valor tão mais ‘em conta’?

Pouco se sabe sobre os métodos e processos de produção da maior parte dos produtos que consumimos. No Brasil, o fator preço baixo acaba sendo um grande agente decisório no ato da compra. Mas precisamos adquirir tudo o que compramos? Ou talvez devêssemos começar a nos indagar com maior frequência o que de fato estamos fazendo em meio a esta equação de estilo?

O Fashion Revolution Brasil disponibilizou o primeiro Índice de Transparência na Moda do Brasil em 2018 (acesse esse link para baixar o material clicando aqui)

indice de transparencia Fashion Revolution
Índice de transparência Fashion Revolution

Este índice explica o motivo de tamanha importância e transparência na indústria de moda, a fim de que todos os trabalhadores tenham condições mais dignas de trabalho, de reconhecimento por seus esforços. O material possui 73 páginas de análises interessantes ao cenário de moda brasileira. A fim de que os consumidores saibam de modo mais abrangente e limpo como anda o processo de produção dos produtos consumidos, o quanto valem os materiais investidos na manufatura de cada peça e o quanto é realmente repassado a cada um dos profissionais que fizeram com que ela ficasse pronta à venda. Foram analisadas 20 grandes marcas varejistas brasileiras, classificadas conforme as informações disponibilidades sobre seus métodos e processos de produção,  suas políticas, práticas e impactos sociais, culturais e ambientais.

marcas selecionadas_página 24 do indice
Marcas selecionadas – Está na página 24 do índice.

Trata-se de um material muito consistente e bem elaborado, cujo maior objetivo é o de pedir por maior transparência na cadeia de produção de moda.

Ainda não foi lançado o índice de transparência 2019, mas a partir do já disponível podemos ter uma boa noção do cenário de moda fast fashion no nosso país.

Vamos pensar a moda de um jeito mais abrangente e consciente? Que tal conhecer um pouco mais sobre as práticas e valores industriais das tuas marcas preferidas? Afinal, sendo a roupa um estandarte de quem somos, nada mais justo do que sabermos o que de fato representa aquilo que nos veste.

Um abraço e até mais!

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